Divorce, quase um desserviço ao gênero

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Divorce, como o título e toda a campanha publicitária deixaram claro, fala sobre divórcio. Depois de anos juntos, um casal resolve se divorciar, e a série pretende dividir conosco esse embaraçoso e doloroso processo. A série foi criada pela atriz inglesa Sharon Horgan, que foi responsável pela criação da elogiada e premiada sitcom Catastrophe, esta também focada na convivência de um casal. O que fica bem claro, após assistir ao primeiro episódio de sua nova série para a HBO, é que esta também poderia ter levado o mesmo nome — e dessa vez de uma forma que ela possivelmente não esperava.

“Eu quero salvar a minha vida enquanto eu ainda me preocupo com ela.”

Frances, Divorce.

Nas palavras da criadora, que também assina o roteiro do Piloto, ela gostaria de falar sobre o quão humano, ridículo e angustiante pode ser o divórcio. Esta não é uma proposta presunçosa, então vemos indícios disso de forma muito evidente durante os trinta minutos. Nesse sentido, o objetivo foi alcançado. O problema é a forma como ela chega nesse resultado, as ferramentas que utiliza para contar sua história e o mais importante: a inacreditável capacidade de entregar um texto mal escrito. Que Sharon tem capacidade para se destacar dentro desse meio é indiscutível, e seu pêmio BAFTA está aí para provar. Em Divorce, entretanto, ela entrega um material final desajeitado, uma vez que a boa direção não dialoga com a imaturidade do roteiro. Antes de mais nada, fica a sensação de amadorismo.

Sarah Jessica Parker, a real razão pela qual realmente paramos para conversar sobre essa série, interpreta Frances, uma mulher que tem casamento e vida estáveis, mas decide abrir mão disso porque não se sente feliz, principalmente com o marido, Robert, interpretado pelo ator Thomas Haden Church. Com essa premissa, a primeira coisa que pensamos é como a série poderia dialogar diretamente com algumas produções na carreira da atriz protagonista, principalmente Sex and the City — é inevitável que cheguemos aí. Acontece o contrário, e pode ser que durante o episódio nos perguntemos como ela aceitou o papel e não questionou algumas escolhas dentro da narrativa mesmo sendo uma produtora executiva.

Em cena: a atriz Sarah Jessica Parker interpreta Frances.
Em cena: a atriz Sarah Jessica Parker interpreta Frances.

Desde os primeiros vídeos, imaginei que Divorce falaria sobre o tema de uma forma madura, tirando o cômico das situações a partir de cenas despretensiosamente embaraçosas. O que a série faz, na verdade, é se esforçar de forma quase infantil para divertir seu telespectador. Há momentos em que sabe se apropriar do humor de seu enredo de forma interessante, mas, no restante do tempo está se esforçando demais — e sempre que reparamos que algo está se esforçando muito para nos fazer rir é porque não é engraçado de verdade. Para ilustrar a situação, há duas cenas: A primeira no carro, no começo do episódio, quando Robert consegue o dom assustador de transformar uma música do Coldplay em irritante, até que sua esposa decide desligar o rádio sem pedir licença e instala um silêncio desconfortante entre eles. Em outro, que não funciona, no final do episódio, durante uma conversa séria, dessa vez sem distrações, gritos e crises, Frances e o marido conversam sobre o divórcio. Quando ele pergunta quando tudo começou a dar errado, ela se arrisca a dizer que foi quando ele passou a deixar o bigode crescer. Enquanto a primeira cena é mais incômoda, a segunda tira totalmente o brilho do momento somente para usar uma piada que, no fim das contas, não chega a ser engraçada.

A decisão de Frances chega depois de presenciar uma situação caótica no aniversário de uma de suas amigas. A festa ocupa os dez primeiros minutos de cena e utiliza bem esse tempo, com uma direção que não deixa que as situações mais ridículas se tornem exageradas. O que se percebe, a partir daí, é o quão mal se relacionam as personagens principais com as secundárias quando separadas. Isto é, os dois só são interessantes quando juntos, e as cenas que dividem são as melhores. Quando separados, Robert é visto de longe como um senhor de idade rabugento e esquisito, e os diálogos de Frances com suas amigas são bobos e vulgares — as falas são ditas naquele ar de frescor e originalidade, mas sabemos que não são especiais, mas meros genéricos de conversas bem mais empolgantes que qualquer telespectador pode ter tido em um bar qualquer, ou mesmo em transporte público. A impressão é de que as cenas que realmente importam acontecem quando o casal principal está junto, mas, quando isso acontece, o texto não sabe aproveitar a situação.

“Às vezes eu chego em casa do trabalho e eu estou feliz. Eu me sinto feliz de verdade. Então, eu vejo seu carro lá, estacionado, e eu percebo que está em casa, e meu coração afunda.”

— Frances, Divorce.

Quando digo que o texto da série é equivocado, não falo apenas dos diálogos ruins, das piadas fora de tempo e da forma infantil como a personagem do Thomas Haden reage a absolutamente tudo, mas também da incoerência narrativa da história. Frances, que possui um amante, decidiu-se sobre o divórcio e passou a tratar o marido de forma fria, mas bem adulta e sincera. Não o queria porque mesmo os pequenos hábitos dele a irritam. Entendemos e a apoiamos. Ela quer ser livre, e pode, afinal, é um direito que as mulheres adquiriram e que é muitas vezes explorado na dramaturgia, como Sex and the City fez. Após se encontrar com Julian (interpretado pelo ator neozelandês Jemaine Clement), o amante, e receber dele um tratamento frio (em mais uma obviedade do roteiro), ela muda mais ou menos de ideia. Volta ao marido, trata-o com mais serenidade, senta em seu colo e termina o dia na cama com ele. Não é uma situação impossível de acontecer, mas além de não ser interessante, faz um enorme desfavor às questões femininas tão bem apontadas pelas produções mais recentes e só apoia a visão machista que a indústria tem feito por décadas das mulheres. Pior é perceber que Julian parece uma versão bem menos interessante do Adam de Girls.

Em cena: os atores Jemaine Clement como Julian e a atriz Sarah Jessica Parker como Frances
Em cena: os atores Jemaine Clement como Julian e a atriz Sarah Jessica Parker como Frances

Essa forma de resolução para alguns conflitos me deixou frustrado. Outro momento em que isso ocorre é quando Frances recebe uma ligação do amante, provavelmente para se desculpar, mas decide não atender porque o marido está por perto. Era o grande momento da série dar  à personagem a chance de ser madura e lidar com aquilo. O que acontece é que o marido descobre e, após uma saída sua, resolve trocar a fechadura da porta e lhe deixar para fora. Pode acontecer na vida real? Pode. É interessante ver isso em tela? Não. É o tipo de desenvolvimento que esperamos em comédias com outras propostas e de outros canais, como Eu, A Patroa e As Crianças, não aqui. Esses momentos ruins acabam alongando demais o episódio, que parece bem mais longo que seus trinta minutos.

Os filhos do casal aparecem pouco, e quando aparecem se mostram os adolescentes chatos que têm pouco peso dentro da narrativa. No começo, imaginei que a série usaria disso para mostrar o quão solitária a personagem da Jessica é, mas não é isso que ocorre. Não há propósito algum.

Os atores, entretanto, estão muito bem. Parker está entregue, tem muito domínio de seu texto (por mais bobo que ele seja) e transita entre as cenas utilizando da longa experiência como atriz para alcançar a intenção por trás de cada palavra. A atriz Molly Shannon contribui positivamente, por mais exagerada que seja às vezes. Thomas Haden não encontrou o tom da personagem… Aliás, nada a respeito dele funciona. Seus melhores momentos são quando está com Sarah e não tem fala alguma.

Em cena: à esquerda, a atriz Molly Shannon, que faz uma boa participação na série.
Em cena: à esquerda, a atriz Molly Shannon, que faz uma boa participação na série.

É HBO, então a produção é boa, a fotografia é boa, a direção também. Eu estava com muitas expectativas, mesmo após a recepção morna por parte dos críticos, e talvez isso reflita diretamente sobre se você vai ou não gostar da série. Há alguns diálogos bons, o que me faz acreditar que a série pode melhorar. Resta saber se Sharon Horgan fará isso enquanto ainda estamos preocupados com isso.

  • Alan

    Estava com expectativa baixa, mas por ser HBO, eu resolvi arriscar. Muito chato, muito fraco.

    • Pois é, Alan, “fraco” é uma ótima palavra para definir. Principalmente por ser da HBO, uma emissora onde recurso e censura não são problemas.

      Obrigado pelo comentário. 😉

  • Viviane Simão

    Review perfeita.

    • Obrigado pelo elogio e pelo comentário, Viviane. Você assistiu ao episódio? Quais suas considerações?

  • carla machado

    A review está ótima.
    Mas não largarei agora não. Vou dar mais duas chances pra Sarah.

    • Também não vou largar, Carla. São só dez episódios, meia horinha do nosso dia, e a Sarah consegue salvar algumas cenas.

      Obrigado pelo elogio e pelo comentário. 😉

  • Francisco dos Anjos

    Concordo com tudo, mas gente… Sarah Jessica Parker é mto amor <3

    • Eu divido desse amor, Francisco, mas sou extremamente crítico com as pessoas que eu admiro, então puxo sempre a orelha de meus atores favoritos quando se metem em projetos desastrosos. Espero que ela não se torne a única coisa a se salva da série.

      Obrigado pelo comentário. 😉

  • João Carlos

    Para mim nada funcionou

    • Eu salvei o que deu para salvar, então não dispenso absolutamente tudo, mas está complicado. Foi um Piloto bem estranho, principalmente pelo elenco, pela criadora e pelos atores — e pela publicidade. HBO precisa começar a repensar onde coloca o seu dinheiro.

      Obrigado pelo comentário. 😉

      • João Carlos

        Estranho. Foi o que definiu esse piloto. Eu já não tinha a intenção de acompanhar a série, e talvez fique boa a partir dos próximos episódios, mas o piloto não prende.

  • Suliz

    Geralmente vejo uns 3 episodios para largar uma série mas é como vc disse parece ter mto mto mais que 30min. Tentei ver duas vezes, cochilava, acordava, e ainda tava passando kkkkk
    Dô conta não

    • Pois é, Suliz, eu não conseguir dormir, até porque tinha que escrever sobre ela, mas tem um ritmo meio estranho, principalmente para uma comédia. Vou continuar a assistir, se melhorar fica avisado por aqui, tá certo?

      Obrigado pelo comentário! 😉