Divorce 1×03/04: Counseling/Mediation

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É preciso assumir: os dois últimos episódios de Divorce conseguiram fazer a trama da série avançar. Estacionamos, após essas duas semanas, entretanto, onde deveria ter sido o ponto de partida ou continuação direta ao primeiro episódio. Se o público já imagina aonde a série chegará e qual é a sua proposta, não faz muito sentido esperar muito para que isso ocorra. Isto é, se o próprio nome da série da a entender que é um processo de divórcio que acompanharemos, não é necessário que gastemos muito tempo com outras formas de analisar e restaurar o casamento dos protagonistas — se isso acontecesse, o nome da produção estaria equivocado.

A melhora na qualidade dos episódios vai acontecendo gradativamente com uma cena boa aqui, outra cena boa ali, mas nada que justifique essa lentidão. No fim das contas, a sensação é de que estamos diante de uma série vazia e que demora muito para se estabelecer e estabelecer uma relação entre público e personagem. Há certo esforço da nossa parte, principalmente em relação à personagem interpretada por Sarah Jessica Parker, mas não é possível que imaginemos carisma onde não há e criemos empatia única e exclusivamente por conta da figura da atriz. O público da HBO, mesmo carente de sua presença, aos poucos vai percebendo que ela está enterrada demais em um texto ruim — e se ela mesmo não consegue salvar muito de seu papel, não há nada que possamos fazer em seu auxílio.

1×03: Counseling
Em cena: os atores Sarah Jessica Parker (Frances) e Thomas Haden Church (Robert) no terceiro episódio de Divorce. 
Em cena: os atores Sarah Jessica Parker (Frances) e Thomas Haden Church (Robert) no terceiro episódio de Divorce.

No último texto, eu disse que o episódio só começava aos dezenove minutos, quando Frances e Robert paravam para conversar e ele deixava de lado o comportamento birrento que adotara desde o momento em que descobriu a traição. Aqui, partindo do princípio de que ambos decidiram enfrentar a situação de forma madura, o terceiro episódio foca nas sessões de aconselhamento para casal, nas quais cada um expressa a forma como se sente e o que o caso dela significa para eles.

Honestamente, não gosto dessa tentativa de restaurar o casamento deles, por mais sentido que ela faça sentido. Nesses momentos, não só Frances se apaga, afinal sua personalidade fica diminuída diante dos acessos infantis dele, como as cenas desconversam com a proposta da série e como ela fora vendida. Outro ponto é que as atitudes deles entre as cenas com a terapeuta não condiz em nada com essa tentativa madura de encarar problemas matrimoniais. Soa falso e desajeitado.

Robert é uma personagem muito complicada de se acompanhar. Não sei a quem os roteiristas estão tentando alcançar com ela, mas não funciona para mim. Como a parte que fora magoada, tecnicamente seria mais fácil simpatizar-se com ele e criar empatia com o telespectador, mas não é o que ocorre. Suas cenas com a esposa são vergonhosas, e suas cenas com outras personagens são penosas de acompanhar.

Counseling trouxe um ponto interessante. O roteiro decidiu falar sobre o conceito de traição e o que envolve essa definição no ponto de vista de cada um. Para Robert, é preciso que haja toque, contato físico, enquanto para Frances (como a maioria das pessoas que eu conheço), entretanto, a simples ideia já configura o ato. Nesse caso, poderíamos dizer que ela o traiu no sentido de traição que ele enxerga, e ele fez o mesmo, quando analisamos o contrário. Frances interpretou tudo de forma boba e desceu ao mesmo nível ingênuo dele, quando poderia, pelo contrário, ter lhe responsabilizado de forma que não soasse como vingança ou algum modo de escapar de sua própria culpa.

A adição do outro casal foi boa, mostrando de maneira sutil (?!) sua evolução, enquanto os protagonistas apenas se desgastavam. O desfecho do episódio condiz com o enredo da série, então foi bem-vindo. A última cena poderia ter sido ótima, mas a necessidade do roteiro de ser engraçado estragou a situação, o que foi uma pena.

1×04: Mediation
Em cena: os atores Sarah Jessica Parker (Frances) e Thomas Haden Church (Robert) no quinto episódio de Divorce. 
Em cena: os atores Sarah Jessica Parker (Frances) e Thomas Haden Church (Robert) no quinto episódio de Divorce.

Na quarta semana de Divorce (e é um grande número se consideramos uma temporada de dez episódios), finalmente, Frances e Robert assumem que querem o divórcio, tanto para si quanto para os filhos. O episódio, então, aborda a forma como desejam executar o processo, quantos advogados utilizar e similaridades. Como é de se esperar, ambos começam com um plano, mas logo o sabotam.

Divorce investe muito em cenas com uma Frances descontrolada que desabafa com pessoas com as quais não tem nenhuma intimidade. Não só é repetitivo, mas um recurso que soa raso e preguiçoso. Isso aconteceu no começo do episódio passado naquela cena desastrosa e volta a acontecer nesse. Além de inserir uma personagem esquecível a mais na figura do jovem do outro departamento, a série enfraquece a sua protagonista quando demonstra que ela não tem controle sobre si e vira a imagem caricata que as personagens femininas têm na televisão e no cinema.

As cenas com Julian não contribuem muito, demonstrando, no máximo, o quão desesperada Frances está para correr para ele. As cenas entre Robert e Diane ou Robert e Nick foram mais significativas, pois elas o ajudaram a estabelecer a situação econômica do protagonista, que pode ser interessante para avaliar sua decisão no final do episódio, quando decide abandonar a abordagem de utilizar o mesmo advogado com a esposa.

O casal confessa às crianças a separação, e estas reagem bem, o que prova que talvez sejam as personagens mais maduras da série. Há sempre essa quebra entre momentos dramáticos e cômicos, nos quais a série se leva a sério demais (onde reside seu potencial) e quando se joga em piadas ruins e fora de hora.

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Por mais que se venda como comédia, Divorce tem na tentativa de se adequar a esse gênero seu grande ponto fraco. Não há momentos bons o suficiente para que justifiquemos a permanência da série em nossa grade pessoal, mas ficamos. Talvez por Sarah. Talvez pelo selo HBO. Talvez pela duração dos episódios. Nunca pelos méritos do material entregue. Sigamos.