Divorce 1×02: Next Day

0
281

Divorce tem cara de HBO. Olhando atentamente, a série tem cara de Girls também. Não é por acaso, os três primeiros episódios foram dirigidos por Jesse Peretz que trabalhou em ambas as séries, e, como sabemos, cada diretor deixa impresso sua marca, principalmente quando pode abusar de uma boa produção. Talvez não damos créditos o suficiente para a direção de um episódio, assim como não damos aos escritores deles. Não vamos atrás das informações de quem escreveu, quem assumiu a direção do seguimento. Sempre parabenizamos os showrunners e os atores (que de fato merecem), mas deixamos algumas profissões de lado. A boa direção é perceptível de diversas formas, mas talvez se destaque de forma mais incisiva quando o roteiro é ruim. É quando dá para perceber se a direção vai se destacar ou afundar o episódio. Isto é, em episódios ruins e em séries ruins, o trabalho de direção se destaca mais facilmente. Se tratando da série da Sarah Jessica Parker, eu salvo a direção, madura demais para a proposta, e condeno o texto.

Não posso dizer que o roteiro é preguiçoso, assim como os atores, ele se esforça. O problema é para o quê ele faz tanto esforço, aonde, aparentemente, deseja chegar. Sharon Horgan assina novamente o roteiro, mas, dessa vez, divide a responsabilidade com Paul Simms, que, ao que tudo consta, tem experiência com talk-shows americanos. Ele não traz nada de diferente ao roteiro e, se trouxe, não foi uma contribuição positiva. Diferente do primeiro episódio, que fez suas apostas em um drama que despencava para a comédia sem sutileza alguma, essa sequência está totalmente entregue à necessidade de não se levar a sério. O resultado disso é que nós também não levamos. As situações aqui são ainda mais improváveis, as personagens estão ainda mais desgastadas (absurdamente rápido demais) e o desinteresse sobre a história só cresceu.

Como o título deixa transparecer, o episódio dessa semana começa no dia seguinte, e descobrimos que Frances teve que dormir na casa de uma amiga dela, afinal seu marido foi irredutível. Por que ela não quebrou a própria casa e entrou de uma vez eu não vou saber responder — seria a primeira coisa que eu faria.

Enquanto o primeiro episódio se espalhou através de diversas subtramas, aqui basicamente acompanhamos o casal conversando — por “conversando”, entende-se ela correndo atrás dele durante vinte minutos em tela. A forma como ela vai de um lado para o outro me lembrou aquele filme da Jessica Parker, Não Sei Como Ela Consegue — que nós meio que complementamos com “aceitar esses papeis” em nossas cabeças. O que incomoda aqui, além da infantilidade de Robert, é o modo como Frances aguenta tudo e o suporta como uma mãe muito paciente.

Se a personagem dela ameaçava ser interessante semana passada, nesta perdeu qualquer oportunidade de encanto. O que nos perguntamos em diversos momentos é por que ela está aguentando aquilo. E, se formos mais além, por que qualquer mulher deveria aguentar aquilo. Nesse caso, entramos em um problema no roteiro, que estranhamente é escrito por uma mulher: A percepção que tenho é de que Frances aguenta o comportamento do marido porque sente que deve ser punida porque o traiu. O que se tem é esse pensamento de que a mulher que trai deve ser apedrejada em praça pública. Então ele a deixa para fora, coloca suas coisas na rua, deixa-lhe uma mala com apenas sutiãs (!) à porta, joga sua bolsa no lixo e a humilha diante de suas amigas. Certo é que traição alguma é justificável. Certo é que traição só acontece com relacionamento que não está bem estruturado. Quando a traição é um fato, entretanto, resta-se dialogar a respeito, resta aceitar o que aconteceu e agir de acordo. Sendo assim, que ela repense todos os motivos que a levaram à traição — que por mais que não possamos apoiar, foi aqui ou ali uma reação à necessidade de se divorciar, e ela precisa aceitar isso. Estamos em 2016, não precisamos assistir a uma mulher que traiu fazer a caminhada da vergonha.

Não há orgulho algum em trair, e isso independe de gênero, eu sei, mas dá para levantar boas discussões do tema, sem que uma das personagens esteja inclinada a vestir ou impor qualquer tipo de humilhação. Robert está magoado, e isso é visível. O que fazemos com a mágoa, entretanto, é o que define nosso nível de maturidade — e o que o roteiro da série decide que as personagens devem fazer em resposta é o que define sua qualidade. Que Robert esteja decidido a se separar, afinal sua honra (?) foi ferida e isso é imperdoável, ou que ela mesmo decida por isso — por que ela desistiu do divórcio mesmo?

É preciso sempre contextualizar um texto com seu tempo. É preciso justificar a existência de uma série a partir do que ela entrega como questão para reflexão. Não tiramos absolutamente nada relevante desse modo de lidar com o tópico. Se for para debatermos o castigo clássico imposto à mulher adúltera, que larguemos esse episódio no meio e que partamos para Dom Casmurro e a isolação de Capitu, naquele final estranho e desanimador. É bem mais divertido, isso eu asseguro!

Pessoalmente, eu acho que o episódio começa aos dezenove minutos. Frances e Robert param para conversar. Os diálogos estão novamente inundados por piadas fora de hora, e que não são engraçadas, mas percebemos aqui, nessa cena, que a série está seguindo e deixando de lado essas brigas bobas. As duas cenas seguintes são as primeiras cenas satisfatoriamente boas e maduras — e as últimas. Robert procura o professor, amante da esposa, na internet, e Frances tem o primeiro diálogo relevante com a filha. É nesse tom que a série precisa estar, e é aí que reside sua força. É uma pena que Sharon pareça não estar ciente disso.

O terceiro episódio ainda é assinado pela criadora. Depois disso, a dança da cadeira entre escritores e diretores começa. Espero que isso faça bem à série, que, por mais que tenha dois episódios, já precisa reformular sua forma de fazer comédia. Quando Robert caminha com a esposa, levando-a para a porta, tudo o que eu pensava era “não, ele não vai fazer isso; não, a série não vai fazer isso”. Fez, e com três minutos já estava testando seu público. O episódio inteiro poderia ter sido resumido em cinco minutos, o que é bem desconfortável de se notar.

Para não ser rabugento demais: há uma cena com Maddie Corman legal. A personagem dela, Carla Menotti, é do tipo adoramos odiar. Molly Shannon brilha com muito pouco, e Dallas, a personagem, mostra potencial para ser melhor explorada. Não acho que a música tenha se destacado muito dessa vez. Ao final de sua segunda semana, entretanto, o mais interessante sobre Divorce é o cachorro — e eu não gosto de cachorros.