Dead of Summer e a limitação do próprio público

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Algumas produções, antes mesmo das filmagens começarem, sofrem o mal de terem nascido no canal errado. Isso envolve diversas questões, mas o meu foco é o quanto o público de cada canal limita o criador de tal série a se adaptar e adaptar sua história a ele. Nesse caso, ao analisar uma história de horror é preciso levar isso em consideração. Não dá para esperar a mesma violência de um episódio de Tales from the Crypt mostrada em uma história de Are You Afraind of the Dark? Assim como é preciso relevar toda a liberdade de Gravity Falls, aquela série animada maravilhosa, na hora de assisti-la. Isso não é desculpa para roteiro ruim, eu sei, eu sei… Nunca foi. Há de se reconhecer que algumas fazem um bom trabalho se levarmos em conta sua audiência, já que nem todas conseguem transgredir a ideia de audiência fixa. Sendo assim, Dead of Summer foi uma boa surpresa, principalmente por ter vindo da Freeform, emissora cuja ideia de thriller está associada a Pretty Little Liars.

Dead of Summer se passa em 1989 e mostra os jovens instrutores de um campo de verão chegando ao acampamento e se preparando para a sua reabertura, depois que ele se manteve fechado por diversos anos. O acampamento, Stillwater, acaba se tornando um pesadelo para eles por desenterrar memórias desconfortantes e assombrá-los, um por um, dando a cada membro da equipe um destino desagradável. A série foi criada pelo time Edward Kitsis, Adam Horowitz e Ian Goldberg e foi ao ar entre junho e agosto desse ano, fechando sua primeira temporada em dez episódios.

“Essa é a questão sobre História: ela se repete.”

— Garrett em Dead of Summer.

A história de Dead of Summer se passa em um acampamento, em 1989.
A história de Dead of Summer se passa em um acampamento, em 1989.

Boa parte da atenção se volta a Amy (interpretada pela atriz Elizabeth Lail), que decide aceitar esse trabalho como forma de superar uma tragédia pessoal, mas o roteiro sabe dividir bem o foco entre as personagens secundárias e, por mais que nem todas nos ganhem, elas são o motivo para muito do que funciona na série. Isso também ocorre em outras produções da emissora, quando atores carismáticos e um elenco cuja química é visível e bem explorada acabam nos deixando presos em histórias sem sentido algum.

Cada episódio é focado em uma personagem diferente, e, conforme os acontecimentos estranhos no acampamento vão se tornando mais perigosos, vamos conhecendo seus segredos e motivações. O Piloto ou “Patience” foca-se na citada Amy, que, diferente dos outros instrutores do grupo, é nova por ali e não cresceu com eles. A sensação de não pertencer ao grupo se arrasta pela sua vida e vamos percebendo que ela tem dificuldades para fazer amigos. A última que fez não terminou tão bem, e foi o motivo para partir com esses estranhos.

O segundo episódio é focado em Alex Powell (Ronen Rubinstein) e começa a jornada da série no foco a assuntos mais sérios. Filho de imigrantes russos, Alex tem uma história de adaptação e de assimilação da cultura alheia para fugir de discriminação nos Estados Unidos. A primeira morte entre o grupo ocorre nessa sequência. O terceiro episódio se foca na personagem de Amber Coney, Cricket Diaz, e na relação que ela estabelece com o próprio corpo em busca de aceitação. Por mais que soe bem familiar, principalmente ao público do canal, há uma surpresa interessante dentro da história da moça e que dialoga diretamente com os debates sobre o papel da mulher que tanto presenciamos hoje em dia, o que eleva o episódio diante dos anteriores.

Na semana seguinte, a série focou em Drew Reeves (Zelda Williams), jovem transexual em época confusa para entender o mundo e a si próprio. Possivelmente a história mais forte da série, o episódio prova como, por mais que Dead of Summer queira se estabelecer no horror, é na elaboração dos dramas pessoais de suas personagens que a série se sobressai.

Em cena: os atores Zelda Williams (Drew) e Mark Indelicato (Blair).
Em cena: os atores Zelda Williams (Drew) e Mark Indelicato (Blair).

A série atinge seu auge nos dois seguintes, quando fala sobre suicídio, no quinto episódio, e trabalha a mesma tortura psicológica a respeito de vozes que séries como The Leftovers e River fizeram no último ano. Em The Dharma Bums, o sexto, os jovens decidem usar de uma sessão espírita para conversar com um deles, o que não acaba muito bem. Enquanto isso, conhecemos mais sobre Deb Carpenter, a diretora do acampamento e suas razões para reabri-lo. As sequências que ela protagoniza são regadas de arrependimento, medo e insegurança — nenhuma dessas no sentido sobrenatural, mas ligadas às escolhas que fazemos e como lidar com elas quando o temido futuro chega.

Os episódios seguintes têm momentos divertidos. A história de Jessie (Paulina Singer), minha personagem favorita (e possivelmente da maioria), é revelada e tem um tom de frustração por ser bem mais comum do que imaginamos. Há de se ignorar os impulsos da série em formar casais e preencher seu tempo com cenas românticas. O único relacionamento que vale a pena se atentar é o de Blair (Mark Indelicato), um garoto homossexual e Drew, o garoto transexual, que é o tipo de casal que deveria aparecer com mais frequência na televisão — mesmo que a forma como tudo tenha sido feito abra discussões.

Em seus dois últimos episódios, Dead of Summer decide se dedicar ao sobrenatural, o que não é o mais interessante em seu roteiro.
Em seus dois últimos episódios, Dead of Summer decide se dedicar ao sobrenatural, o que não é o mais interessante em seu roteiro.

Há uma reviravolta no final e algumas sequências envolvendo exorcismos e espíritos, que coloca a série em um nível de absurdo questionável. A revelação, que acontece no penúltimo episódio, é bem-vinda e me pegou de surpresa, dando algum carisma à personagem que tanto precisava disso. O último episódio mostra uma trama desgastada pelos próprios furos e carente de um bom final, mas, quem conseguir se habituar pela temporada não se importará com o quanto o roteiro recorre ao absurdo para seu desfecho.

Dead of Summer foi escrita por roteiristas especializados em séries para adolescentes e acostumados com os temas que passeiam por essas produções. Sendo assim, a série sabe levantar questões relevantes e usar o melhor e o pior de filmes que possuem essa faixa etária na descrição de suas personagens. Há uma forte referência a música, principalmente a Bowie, por mais que a trilha original soe bem derivada. Como Wynonna Earp pode funcionar melhor com o público de Supernatural, a recomendação é para uma plateia menos exigente, que aguentou sete temporadas de Pretty Little Liars — e não falo com deboche, não, tenho saudade da Spencer.

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#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

  • Lone Meireles

    Eu amei essa série, os episódios finais então.

  • Juliano Guilherme

    Assisti Dead of Summer me sentindo um alienígena em meu próprio planeta. Comecei por recomendação e até agora estou sem saber o por que da mesma. Será que sou um adolescente estupido e descerebrado? Será que passei tanto tempo com series que considerava boa e agora não sei reconhecer boas atuações, boas historias e conteúdo inteligente ? Ou será que imbeciloide, inculto e vazio foi quem me indicou a série ? Minha opinião e que Dead of Summer e um emaranhado de clichés, com péssimas atuações de um grupo que pouco casa com o momento ou com a época, história fraca,non sense total e com carisma praticamente nulo. No final das contas me senti em uma série de zumbi pois ao termino do episodio já estava louco por cérebro já que em minha cabeça não tinha mais nada!

  • vinland

    Uma das piores coisas que vi esse ano. Tudo muito ruim, a começar pelos atores, e seus personagens esteriotipados. Uma historia sem sentindo algum, que faz uma mistura de varias coisas e da muito errado. Assisti ate o episodio 6 e larguei, e nao recomendo pra ninguem essa serie.

  • Omar

    Assisti três ou quatro episódios e larguei. Havia tempo que não via uma série de “terror” tão ruim. Na verdade a série se preocupou mais em “lacrar” do que criar uma boa história e atmosfera de terror. É só ler o quanto o povo vibrou com o final com a cor, opção sexual dos que sobreviveram… Quem vai se importar com o roteiro?

  • Camila

    Gostei dos primeiros episódios de Dead of Summer, mas acho que do terceiro pra frente o negócio desandou e eu fiz um esforço muito grande pra assistir a série até o final (se eu comecei eu tenho que terminar, é por isso que eu ainda assisto Pretty Little Liars, por mais dificil que isso seja), a série foi renovada?

  • Junior Menezes

    Esse é o típico caso de série ruim, péssima que a gente ama odiar assistir. Sinceramente, não sei o que são piores: os efeitos (sim, eu sei que estamos falando da Freeform a.k.a. ABC Family, acho) as atuações ou um enredo completamente clichê. Enfim, não espero renovação, já que o final ficou ‘bem fechadinho’, apesar de o ‘esquartejamento’ de uma das pessoas aí ter ficado junto (sim, é mostrado a Amy esquartejando alguém e no ângulo seguinte a pessoa está inteirinha da silva) e apesar de tudo. Não é todo dia que temos uma Salem, Penny Dreadful ou AHS: Roanoke na vida, não é?

    P.S.: 1 – Mentira que você falou de Are You Afraid of the Dark!?! Saudades eternas (boatos que baixei tudo mas a fall season não me permite maratonar). Tales from the Crypt só ouço falar. É boa? Claro, vindo da HBO já se pode esperar algo bom (pena que Vinyl está aí para desmentir).

    2 – Are You Afraid of The Dark me dava um medo escabroso quando era criança, lá pelos anos 2002-2004, quando passava pela Record. Já assistiu à série toda?

  • Clébio Cabral

    Comecei vendo essa série pelo clima de anos 80 que adoro! Acho que saiu logo depois de Sranger Things e eu estava no embalo… Fui assistindo mas lá pelo 4 ou 5 episódio não deu mais. Qnd vi que não importava com quem matava ou quem morria parei. Não consegui me conectar com os personagens nem com a trama. Enfim, uma das piores coisas que pedi meu tempo assistindo.

  • Danilo

    Caracas, quanto comentário negativo!
    Estava até pensando em assistir, mas depois de tanta crítica negativa e ser “indicada pra fãs de PLL” é melhor deixar pra lá. Isso não quer dizer que eu vou pela cabeça dos outros, mas um feedback sempre é válido!

  • Matheus

    Acho que o grande problema da série é que ela fica naquela linha que poderia ser mais, mas não foi, se a série tivesse sido para um outro público, outro horário, outro canal, com certeza teríamos uma trama melhor…