Crow’s Blood, o melhor e pior do horror japonês

5
765

Tudo começa em um debate. A discussão não é nova, e aqui é feita de modo bem desajeitado, mas que consegue capturar nosso interesse. Em um congresso sobre medicina regenerativa, os professores Gary Grossman, norte-americano, e Seto Akihito, japonês, participam de uma palestra sobre o futuro de tal ramo e discordam em alguns pontos. Enquanto o primeiro está desenvolvendo uma pesquisa a respeito e se sente confortável com seus avanços, o segundo teme que a ciência esteja bem perto de esbarrar em coisas que não deveria e atravessar a zona do sobrenatural. Mesmo que não possa indicar exatamente onde, ele imagina que algo maul irá acontecer quando decidirmos implantar nas pessoas “partes” que não são naturalmente delas. O debate termina em sangue, literalmente, quando alguém da plateia, um cadeirante, faz um protesto contra o que ouve, cortando a garganta de um colega ao lado. E é assim que começamos nossa história em Crow’s Blood, uma mistura de gêneros, que é, acima de tudo, divertida.

A história corta para um colégio que recebe uma nova aluna, Maki Togawa (interpretada pela atriz e cantora Sakura Miyawaki), quieta e de comportamento estranho. As outras alunas, intimidadas, começam a provocá-la desde o primeiro momento. Kaoru Isozak (interpretada pela também atriz e cantora Mayu Watanabe), por sua vez, mesmo sendo membro desse grupo de veteranas, decide apenas observar a garota nova. Conforme o tempo passa, entretanto, coisas estranhas começam a acontecer perto da novata, o que coloca em risco a vida de todos. Por coisas estranhas eu digo: uma garota se joga do topo do prédio da escola, porque acreditava ser um pássaro. Aos poucos, descobrimos que as duas histórias estão ligadas de forma direta e que Seto e Maki são bem próximos, e o doutor foi responsável por muito do sobrenatural que envolve a garota.

Em cena, as protagonistas: Mayu Watanabe como Kaoru Isozaki (à direita) e Sakura Miyawaki como Maki Togawa (à esquerda). Crow’s Blood.
Em cena, as protagonistas: Mayu Watanabe como Kaoru Isozaki (à direita) e Sakura Miyawaki como Maki Togawa (à esquerda). Crow’s Blood.

Crow’s Blood foi produzida pela Hulu do Japão e conta com seis episódios, cada um com quarenta minutos ou menos. A série teve seu primeiro episódio exibido na NTV, uma emissora de TV japonesa, no final de julho desse ano e o restante dos episódios ficaram disponíveis no serviço de streaming em seguida. Ao que parece, a série foi encerrada no sexto e último episódio, e temos realmente essa sensação quando assistimos, afinal, a história principal se conclui depois de um clímax divertido e que mistura horror e aventura da forma como somente as produções japonesas sabem fazer.

“O assustador é que a beleza é tão misteriosa quanto terrível. Deus e o diabo estão lutando por lá e o campo de batalha é o coração do homem.”

Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov, citação usada na série.

Assim como as propagandas avisavam, acompanhamos uma doença estranha se espalhar na série. A doença em questão é passada através do beijo, o que gera estranhas cenas de tensão entre garotas — e soa bem equivocado para alguns, eu incluso. Através dessa doença, a pessoa infectada se cura de qualquer mal, doença ou condição física que lhe tenha afetado antes. Não só ela se cura, como consegue se regenerar quando machucada, que é o que acontece com a garota que se joga do prédio. Essa cura muda muito da personalidade da pessoa, principalmente porque ela pode ser controlada pela responsável na propagação dessa doença. Com o tempo, torna-se desesperador e muitas se mutilam em busca da morte, sem obter muitos resultados. Outra consequência de estar infectado é que seu sangue se torna mais escuro, preto, como sangue de corvo — e aí se explica o título da série.

Em um dos momentos mais bizarros da série, Aoi Nojiri, personagem de Anna Iriyama, joga-se do alto de um prédio porque acredita ter se tornado um pássaro (!). Crow’s Blood.
Em um dos momentos mais bizarros da série, Aoi Nojiri, personagem de Anna Iriyama, joga-se do alto de um prédio porque acredita ter se tornado um pássaro (!). Crow’s Blood.

Além de decisões criativas para sua trama, Crow’s Blood conta com bons atores, que acreditam no papel e se comprometem com suas personagens. Às vezes a atuação soa exagerada, mas creio que seja algo característico das produções de lá. As personagens não são tão interessantes, com exceção da antagonista, mas não chegam a irritar, como em muitas produções norte-americanas. Kaoru é uma garota muito boba e inocente, mas que por isso mesmo pode ganhar nossa empatia. Maki, por outro lado, tem seus momentos fascinantes. Não entendemos por que ela faz metade das coisas que faz, e isso se torna um buraco que às vezes incomoda, mas é divertido de acompanhar suas bizarrices. A atriz sabe brincar com o lado sinistro dela, e isso ajuda a criar um bom clima de tensão em diversas cenas. Temos ainda Takahiro Miura interpretando Takeshi Sawada, um jornalista empenhado em investigar os acontecidos da escola.

Há momentos simplesmente absurdos, e dá para destacar vários. Entre eles, um infectado pela doença começa a se regenerar na mesa de autópsia, mas, dopado de remédios, não consegue se mexer o suficiente para avisar o legista e acaba sendo mandado para cremação. Como acho que séries com essa proposta precisam desses momentos (assim como Ash Vs Evil Dead precisa), todos são bem-vindos.

Em Crow’s Blood, a contaminação é feita através de beijo. Não sei de quem foi a ideia bizarra e questionável, mas está na série.
Em Crow’s Blood, a contaminação é feita através de beijo. Não sei de quem foi a ideia bizarra e questionável, mas está na série.

Todo episódio é aberto com uma citação que dialoga de alguma forma com a trama, mas que é séria demais para a série. Não dá para colocar Dostoiévski e Miguel de  Cervantes no meio, por exemplo, como acontece. O ritmo dos episódios é bom, por mais que às vezes pareça que a série é longa demais para os quase quarenta minutos de episódio. Mesmo assim, dá para assistir tudo em um dia, como um filme bem divertido que, conforme a classificação de 15 anos mostra, talvez não tenha o público adulto como alvo.

Crow’s Blood tem seu clímax após o quinto episódio, quando a série se foca em uma excursão de colégio.
Crow’s Blood tem seu clímax após o quinto episódio, quando a série se foca em uma excursão de colégio.

No quinto episódio, as estudantes fazem uma excursão, mas acabam presas dentro de uma casa. É quando a contaminação acontece mais rápido, e a série atinge seu auge. A produção se torna quase uma história de zombies e os momentos absurdos se multiplicam. A protagonista, presa nessa casa enquanto um exercito é montado, precisa proteger sua boca para sobreviver. É nesse momento da resolução da história que sabemos que, por mais que comece com um assunto bem sério e polêmico, a série não se leva suficientemente a sério para nos fazer refletir a respeito. Resta ignorar os furos e a falta de motivação para alguns acontecimentos e aproveitar o melhor e o pior do horror japonês — e morrer de vontade de assistir outros Doramas em seguida.

—-

#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

  • vinland

    Assisti ontem essa Minisserie. Achei tudo bem a cara dos japoneses mesmo. Uma serie feita pra eles, com a cultura deles, e com todas as caracteristicas dos produtos deles. Achei legal e divertido, e o que me passou, foi que eles nao estavam nenhum pouco preocupados, se o resto do mundo ia gostar ou nao. Ja vi

    • Ariane

      Olar, me interessei. Viu onde? Tô procurando e não acho 🙁

      • vinland

        Entao, o pessoal aqui do site nao gosta que coloque links de sites. Mas coloca no google que vc acha, mas eu acho que site brasilero nao tem nenhum. E legendas apenas em ingles. Se vc manjar do ingles, ai tudo certo.

        • Ariane

          Ah tá, é que torrent não achei. Vou procurar algum site. Tks!

          • vinland

            Torrent vai ser dificil vc achar mesmo.