The Crown 1×07: Scientia Potentia Est

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Scientia Potentia Est mostrou que a sabedoria e o conhecimento são dois conceitos frequentemente confundidos e que possuem de fato significados muito parecidos, mas com uma diferença fundamental: enquanto o conhecimento diz respeito ao conhecimento científico propriamente dito, sob o ponto de vista de uma educação formal; a sabedoria é criada pelas nossas experiências e pelo nosso meio, em maior ou menor grau. Elizabeth pode não saber absolutamente nada sobre os assuntos que preocupam o presidente americano Dwight Eisenhower, mas sem dúvidas sabe se portar na corte de forma exemplar. Ela pode não saber o que é um triângulo retângulo, mas sabe todos os pormenores de uma cerimônia de coroação, sendo, assim, fundamental na preservação dessa cultura.

Até que ponto, contanto, ela foi criada para ser apenas um adereço da corte inglesa, não para pensar no melhor futuro do seu reino, mas apenas para a função de entreter a todos enquanto “as pessoas que sabem das coisas” governam de verdade? Esse é o questionamento central desse sétimo episódio de The Crown.

Focado em nos mostrar o quanto ninguém parece querer que Elizabeth faça nada, o questionamento sobre a educação que ela recebeu em sua juventude é honesto e inesperado, visto que a jovem parece ter tanto bom-senso o tempo inteiro. A verdade é que, mais do que tudo, ela parece não ter sido criada para reger ninguém, apenas para enfeitar, sob uma ótica absolutamente machista, mais do que comum no meio do século passado. É nesse momento que Elizabeth, mais uma vez, demonstra ser uma mulher à frente de seu tempo. Enquanto todos parecem achar que sabem mais do que ela, a bronca que a rainha dá ao primeiro-ministro ou ao médico real deixou claro: ela sabe muito mais do que eles pensam, mostrando justamente a importância histórica do personagem, que se opôs não só ao seu marido, como ao primeiro-ministro do seu país, duas figuras masculinas que poderiam (e que tentaram) reprimir a jovem, passando uma mensagem importante de empoderamento.

Justamente para nos dar um exemplo da importância da sabedoria de Elizabeth, temos em Scientia Potentia Est o papel de Martin Charteris. Escolhido pela rainha como o sucessor do seu secretário pessoal, o jovem não lida com o assunto de forma minimamente razoável, rapidamente criando expectativas, mudando sua atitude e deixando que sua esposa se gabe sobre o assunto para outras pessoas. Esse não é o comportamento esperado de alguém em sua posição, um erro que Elizabeth nunca cometeria, por exemplo. Se o conhecimento político de Churchill é incomparável, o de Elizabeth sobre os seus deveres enquanto rainha são ainda maiores. Bravo!

The Crown tem não só um bom elenco, como uma excelente produção – The Crown - Scientia Potentia Est.
The Crown tem não só um bom elenco, como uma excelente produção – The Crown – Scientia Potentia Est.

É preciso que se diga também sobre o bom elenco elenco da série. Claire Foy faz uma Elizabeth que consegue conferir ao mesmo tempo a imagem de uma pessoa doce e determinada, porém absolutamente perspicaz e proativa. O seu único defeito talvez seja o excesso de melodrama que ela coloca em sua atuação sempre que está confusa, demonstrando uma afetação exagerada. Não é um trabalho digno de prêmios, mas sem dúvidas é uma bela revelação.

Se Claire Foy cria uma rainha confusa, mas que nos passa segurança, John Lithgow cria um Churchill genial! Ele nos passa a imponência e a magnificência do “Buldogue”, sem deixar de lado a rabugência tão característica do personagem. Acredito que ele sim tem alguma chance em premiações.

Os últimos que vou citar são Filipe, vivido pelo “Dr” Matt Smith, que em uma trama sem vilões, se estabelece como uma espécie de antagonista, apenas por aparentar intenções razoavelmente duvidosas – e o fim de Scientia Potentia Est reforça isso, sendo o sexo um artifício comum do “lado negro”. Além dele, bato palmas para Alex Jennings, que encarnou o ex-rei, Edward VIII com a dose certa de ironia, orgulho, nostalgia e… amor!

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De fato The Crown é uma realização ostentosa, e seu orçamento não nos deixa mentir. Com uma direção boa e uma fotografia maravilhosa, pode ser uma forte concorrente nas premiações do ano que vem. Se a rainha Elizabeth II ainda está lutando para aprender o contexto em que vive, a produção da Netflix parece ter entendido muito bem 😉

  • Diane Morais

    Excelente review!