Conversamos com o elenco do filme Aquarius

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A convite da Vitrine Filmes, o Série Maníacos participou da coletiva de imprensa do filme “Aquarius” em Recife. Estiveram presentes o diretor Kleber Mendonça Filho, Sonia Braga (Clara), Maeve Jinkings (Ana Paula), Julia Bernat (Julia), Paula de Renor (Fátima), Zoraide Coleto (Ladjane), Pedro Queiroz (Tomás), a produtora Emilie Lesclaux e o diretor de arte Juliano Dornelles.

Sonia Braga, que mora fora do país há bastante tempo, considera que Aquarius foi uma espécie de retomada dela como atriz no Brasil. Ela diz que apesar de estar afastada como atriz ainda convive bastante com os familiares e recebe as notícias do país pela internet.

“Parece que quando a gente some da telinha ou da tela grande é como se a gente sumisse do mundo… Para mim esse Brasil que parece longe, distante, na verdade nunca esteve distante, estive presente como cidadã o tempo todo, como atriz é que estive afastada.”

Completando:

“E foi como atriz que essa equipe me resgatou para o cinema brasileiro… foi uma grande honra. Foi um resgate que eles fizeram, me deram a voz, me deram uma plataforma para eu aparecer, para fazer contato novamente. Foi uma relação que foi interrompida e essa relação que com muita emoção eu volto a ter através do filme.”

O filme estreou em Cannes há três meses quando país estava no começo do processo político que terminou recentemente. Kleber Mendonça Filho fala mais sobre a visão que ele tem sobre cinema e política:

“Se tem uma convenção de chamar cinema político filmes que se passam em prédios públicos ou do governo, onde decisões são tomadas, ‘House of Cards’ seria “cinema político” digamos assim, mas eu também acho que filme políticos podem ser como ‘Aquarius’, onde há um drama humano, da vida diária, onde o ambiente social é facilmente reconhecido. E quando você diz ‘não’, você está assumindo um ato político, passa a ser um ato político…. Ao longo dos meses as pessoas perguntam se o filme teria sido inspirado em Dilma. E é tecnicamente impossível isso, porque eu escrevi o filme três ou quatro anos atrás, e estávamos filmando há um ano atrás. E um ano atrás eu seria incapaz de imaginar o que está acontecendo hoje no Brasil. O filme não é sobre Dilma, mas eu acho que quando você faz observações de sua sociedade, trabalha com arte, você meio que pega algumas coisas no ar e eu acho que a gente terminou pegando algumas coisas no ar. E por uma enorme coincidência o filme vai ser lançado numa época crítica para esse processo todo.”

Zoraide Coleto, que interpreta Ladjane, diz que baseou a relação dela com Clara em admiração e respeito e que ainda não acredita que trabalhou com Sonia Braga. “Meu Deus eu só faltei morrer! (risos) Sonia é uma pessoa que admiro muito e inclusive me vestia igual a ela nos anos de ‘Dancing Days’ (risos). Eu acho que foi um sonho que ainda não acordei! Pedro Queiroz disse que foi uma experiência ótima trabalhar com um elenco maravilhoso e que Tomás, seu personagem servia como uma figura de apoio, um amigo além de um lembrete da relação materna para Clara. Ele ainda citou que vê o personagem como uma ponte da relação de Julia e de sua tia.

Já Maeve Jinkings considera Ana Paula uma espécie de antagonista, devido ao momento que vive no filme:

“A relação dela com Ana Paula pressupõe uma porção de questões da vida delas, de proximidades, da mágoa e talvez até de disputa. Esse foi meu maior desafio, porque eu tenho uma admiração profunda pelo personagem da Sonia, mas eu acho que Ana Paula está muito próxima para enxergar esse caráter heroico da sua mãe, esse espaço político de resistência. E de alguma maneira a vida levou Ana Paula para certas posições, digamos, mais conservadoras.”

Julia Bernat, que divide o nome com a personagem, considera interessante a questão de lidar com realidade e ficção na hora da construção do personagem:

“É uma personagem carioca, eu acho que sou bem carioca, passei minha vida inteira no Rio, tenho um sotaque bem forte e para mim foi interessante de lidar com essa questão de lidar com os vários Brasis, eu como carioca aqui em Recife, sinto que Recife é uma outra realidade, outras questões, outro modo de vida, mas ao mesmo tempo é o mesmo país, mesma língua, mesma cultura. A Julia do filme quando chega em Recife, de alguma forma ela conhece uma nova realidade, conhece um novo mundo através dos personagens de Pedro e Sonia. Ainda tem uma questão geracional também, das questões que se estabelecem, de como os interesses em comum, no caso a cultura, acabam criando uma nova relação. Do mesmo modo que eu Julia admiro Sonia, a Julia do filme também admira Clara e a cultura que ela possui, seu modo de vida.”

Para quem não conhece Recife, o prédio que serve de cenário para o filme (o Edf. Oceania) passa por um processo parecido com o da ficção, numa luta de compra e venda para a derrubada e a construção de um novo prédio no local. O roteiro foi escrito baseado em outro prédio clássico da orla recifense (o Caiçara), mas com a parcial demolição foi necessário outro local. Kleber considera que a demolição do prédio foi uma perda para referência e a cultura do bairro e eles tiveram que ir para o ultimo prédio de estilo antigo da orla para a gravação. Foi cogitado filmar em outros estados (Paraíba e Maceió), mas o Oceania acabou servindo como o lar do Aquarius e da equipe durante o processo de filmagem. Juliano Dorneles também contou um pouco do processo de elaboração do apartamento de Clara e falou que queria representar a cultura da personagem visualmente naquele ambiente. Disse também que o set só foi liberado para a equipe quando ficou pronto definitivamente, antes disso era proibida a entrada no local.

Outro grande ponto do filme é a memória. Aquarius trata belamente da questão ao fazer uma crítica da modernidade como um agente de obsolescência do antigo.

“É difícil prever como o público vai receber isso. Espero que não receba como uma espécie de pregação, mas sim como uma série de observações. Existe um limite entre a nostalgia excessiva, que para mim leva a depressão, e de uma nostalgia boa. É bom você relembrar bem das coisas, de respeitar o passado e eu acho que o filme é sobre isso.”

Kleber ainda disse que, assim como a cômoda da Tia Lúcia, que serve de ancora para vários gatilhos de memória do filme, ele também tem objetos que remetem a momentos marcantes da memória familiar:

“Quando eu escrevi o roteiro, eu imaginei a cômoda como o monólito de 2001 (filme de Stanley Kubrick). Mas de objetos pessoais…. Francamente meus discos. Quando criança quando comecei a ganhar discos (vinis) lá em 78, 79 eu colocava aqueles selos adesivos com o nome, a data e ‘Recife’. E quando adolescente eu continuei fazendo isso. E diferente de várias pessoas que se livraram dos vinis eu nunca joguei fora meus discos. Então para mim esses discos são como máquinas do tempo, porque eles têm não só o adesivo com a letrinha de criança, mas as músicas que ainda continuam marcando.” (A história do disco de John Lennon do filme aconteceu de verdade com ele).”

O que levou a questão da seleção das músicas da trilha sonora do filme:

“É extremamente difícil escolher a trilha de um filme, de qualquer filme. Esse em especial porque ela tem uma participação especial, principalmente em cena, já que ela era colocada no local durante a gravação, estabelecendo um estado de espirito. Foi muito difícil escolher a lista de músicas, porque o que hoje parece ser uma boa ideia pode parecer péssima amanhã quando você acorda. Além disso tem o momento em que você coloca no computador na hora da montagem e saca na hora se é incrível ou não funciona, não é bom.”

Para Sonia as músicas foram muito importantes na criação do clima dos momentos-chave do filme, além de que algumas (como a de Roberto Carlos) fizeram parte da vida dela, de momentos pessoais e isso foi uma coisa inspiradora. Sonia ainda disse que não conheceu o bastante de Recife, mas que conheceu a cidade através das pessoas. Ela disse que não queria forçar um sotaque, mas que procurou aprender alguns modos de fala. Outra coisa que ela achou interessante foi que este foi o primeiro filme em que todo mundo se via como uma equipe unida, sem a separação de elenco e equipe. Todos faziam parte da concepção e ajudaram no que era preciso nos momentos da filmagem.

Lucas Fernandes e Sonia Braga
Lucas Fernandes e Sonia Braga

Sonia aproveitou também para falar que não entende a questão da divisão da sexualidade da mulher nos personagens de filmes e séries:

“Desde os 24 anos eu ouço essa pergunta em relação a personagem e sexualidade, de como é fazer cena de amor, porque fazer cena de amor. E recentemente é que me deu um estalo sobre a questão. Quando foi que a sociedade dividiu o ser humano aqui e a sensualidade lá, entendeu? Como se as duas coisas não caminhassem juntas! Eu acho que sensualidade está no corpo, no coração. Até num discurso você pode seduzir. As pessoas falam disso como se fosse uma parte de seu corpo que você tirasse, como uma dentadura (desculpem a imagem!), que você põe de lado quando vai dormir, como se você guardasse isso fora de você. E isso é uma energia, algo que todos nós temos. Nós vivemos com isso, nós carregamos isso, todos nós somos pessoas sensuais.”

Kleber completa:

“Tenho um certo problema com a representação sexual no cinema, principalmente o anglo americano. Lá toda pessoa de vida sexual ativa é fruto de algum trauma sexual ou condenada por essa característica e eu queria que Clara fosse uma mulher que teve e tem vida sexual e não tem nenhuma questão em relação a isso.”

Para encerrar, Emilie Lesclaux falou sobre a distribuição internacional do filme. O filme foi vendido à gigante do streaming Netflix o que por si só já garante distribuição em boa parcela do planeta. Mesmo assim o filme será lançado em mais de 50 países nos cinemas físicos. Perguntada também sobre a indicação do filme ao Oscar, Emilie disse que ainda não sabe, mas que já está trabalhando com os distribuidores americanos para divulgar os filmes nas cidades importantes de lá (principalmente naquelas com uma parcela de população brasileira), além de lançar o filme nos festivais de Toronto e Nova York, em setembro e outubro respectivamente.

Aquarius estreia nacionalmente no dia 01 de setembro.

  • Messinho’

    Sugestao: o trecho que o entrevistado fala poderia não ser em Capslock? Sempre associo a alguém gritando.

    • Isso é uma falha no mobile, na verdade não está em caixa alta. Você leu no cel, né? Já estou vendo isso para concertar 🙂

      • Messinho’

        Sim, foi pelo cel

  • Walber Lima

    Parabéns pela entrevista, Recife cada vez ganhando mais destaque como cenário de produções, e Lucas tá importante, uma honra mt grande poder entrevistar Sonia Braga

    • Lucas Fernandes

      Foi uma oportunidade muito bacana mesmo! Não só conversar com ela, mas com Kleber e o elenco que estava presente, foi algo que nunca vou esquecer.

  • Carol Geaquinto

    Posso ficar orgulhosa né? Sei que você não gosta da minha melação, mas eu sou assim, fazer o que? Parabéns Lufe, foi uma oportunidade incrível e o resultado tá igualmente assim. Fiquei até com vontade de ver o filme, PAH. Muito orgulho do seu trabalho e de ver você crescendo cada vez mais. Parabéns mais uma vez 😉 #PoP

  • Paulo Cesar Toledo

    Boa matéria. Só uma correção: “momentos-chave”.

  • Natsu

    Muito ansioso para assistir esse filme, quanto mais Aquarius ganhar destaque mais transgressor ele se torna contra o governo de Michel Temer. Aquarius é um grito de guerra contra o governo usurpador.

  • Jord Son

    Com esse filme confirma o trabalho de Kleber Mendonça Filho um dos melhores diretores e roteiristas de sua geração, e nos presenteá com uma interpretação magnifica de Sonia Braga…

  • Muito bom! Filme maravilhoso, entrevista também. 😀