Crítica: O Contador, um filme surpreendentemente interessante

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Em O Contador, a grande pergunta é: o que é ser diferente? É uma pergunta que todos nós fazemos, consciente ou inconscientemente, em algum momento da vida. Sejam através de normas sociais, sexuais ou comportamentais, sempre nos adequamos a grupos e seu funcionamento interno para assim nos encaixarmos na sociedade, que cruelmente expurga aqueles que não se adequam. “O Contador” (The Accountant, 2016) se utiliza desse poder da diferença para criar uma trama coesa, que não inova, mas cumpre com aquilo que promete e entretém de modo eficaz.

Tendo mais afinidade com números e quebra cabeças do que pessoas, Christian Wollf (Ben Affleck), um “gênio” da matemática, acaba se tornando contador das mais perigosas organizações criminosas mundiais, usando a fachada de um pequeno escritório de contabilidade. Quando um trabalho que servia para despistar as investigações do Departamento do Tesouro Americano acaba saindo mais perigoso do que os carteis mais letais, Wolff embarca numa corrida para resolver o quebra cabeça que se esconde na contabilidade da empresa ao mesmo tempo que lida com os demônios do passado e as possibilidades que o futuro reserva.

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O grande trunfo do filme de Gavin O’Connor é saber trabalhar bem com os clichês do roteiro de Bill Dubuque. Trabalhando com a questão da Síndrome de Asperger e o relativo desconhecimento do distúrbio neurobiológico pelo grande público, Dubuque trata de modo respeitoso a condição, mas não adentra em detalhes usando o tratamento hollywoodiano de despertar a curiosidade sem atrapalhar o entendimento perante o publico leigo.  Além disso, O’Connor sabe dosar bem os momentos de drama, humor, suspense e ação que aparecem aqui e acolá sem pesar na mistura que é o resultado final.

O Contador
O Contador

Affleck acerta no tom do personagem, entregando uma atuação comedida e que não atrapalha a empatia do público, empregando carisma em toda a “esquisitice” de Wolff (num dos poucos papéis que ele se sai bem na posição, já que na direção ele alcança muito mais brilho). Anna Kendrick serve como a ancora sentimental do filme, a contraparte que servirá de ligação com o “mundo normal” e o possível interesse amoroso (típico em filmes do gênero). Jon Bernthal com seu habitual misto de cinismo e atitude “cool” fecha o trio principal, no papel do “problem solver” de grandes corporações, um segurança/assassino de aluguel. J.K Simmons, Jeffrey Tambor, Cynthia Addai-Robinson e John Lithgow completam o elenco.

O Contador
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Engraçado notar a recorrência do tema familiar na cinebiografia de O’Connor, principalmente no que diz respeito ao confronto entre parentes. Tanto “Guerreiro” quanto “Força Policial” carregam o peso do conflito doméstico no centro de tudo, sempre em evidência e com grande destaque no decorrer da resolução, que neste é o modo como o pai de Wolff “treinou” os filhos para a vida. Outro detalhe que salta aos olhos é a proximidade da “armação” deste filme com a “jornada do herói” típica dos atuais queridinhos de Hollywood, os filmes baseados em HQs. Há uma pessoa com “superpoderes” (podemos classificar assim), um interesse romântico, um “sidekick” na polícia, uma passagem de poderes, um inescrupuloso vilão… Não obstante as referências ao universo da DC nos cinemas (da mesma Warner que produz este) pipocam a todo instante na tela (Affleck – o novo Batman, Simmons – o novo Com. Gordon, A canção de Solomon Grundy – que remete ao vilão tanto do Homem Morcego como de Arrow…), criando um caso parecido com o de “Corpo Fechado” uma obra que carrega a aura de “filme de super-herói”, mas que é na sua essência um drama familiar e de superação.

“O Contador” acaba sendo um filme surpreendentemente interessante por conhecer suas limitações e não extrapolar para algo que não consegue manter. Aliado a habitual virtuose técnica (a ação quando surge é sem defeitos e bem pensada), o filme se sai como um passatempo acima do habitual, se destacando do mar de produções medianas atuais e entrega uma diversão descompromissada, que não se livra dos cacoetes, mas que não os utiliza como único ponto de apoio. Vale a pena o tempo investido.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Warner Bros Pictures Brasil

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  • Alan

    Esse eu quero ver, mas tenho que torcer que tenha cópia legendada

  • Maria Clara

    Hummm, me interessei, apesar de achar Affleck um canastrão. Ele é melhor como diretor mesmo.

  • Maria Catarina Souza Martins F

    Excelente crítica! Realmente um filme que nos surpreende. Quanto mais o analiso, mais virtudes eu vejo nele. Gostei muito da associação com os super heróis.

  • Jordison Francisco

    Ben Affleck tinha que dominar uma arte marcial indonésio para seu novo filme O Contador. Diretor Gavin O’Connor introduziu o ator a forma de luta de corpo inteiro PENCAK SILAT, e disse que ele teria que treinar para aperfeiçoá-lo, porque não haveria muitas oportunidades para ligar em um dublê. “É um estilo indonésio de luta que foi muito cinematográfica, tipo de chamativo, mas muito eficiente que combinava com o personagem. Quando nos aperfeiçoar em que, os nossos caras só começou a treinar Ben.” E a estrela Argo admite treinamento na prática de defesa física era difícil ir. “Gavin estava preocupado que a ação seja real e bom, algo que ele fez muito bem em (filme anterior) Guerreiro”, explicou Ben. “Então, o treinamento era tanto uma parte deste como foi para Batman. “É muito mais difícil em um presente para o dublê para fazer suas acrobacias quando você não estiver usando uma máscara! Eu tinha que ser realmente no topo do meu jogo e trabalhar com profissionais que me educaram sobre este estilo de luta.”

  • Jordison Francisco

    The Accountant é inchado demais, e exagera nas coincidências. Mas também é violento, engajante, engraçado quando precisa, e o mais importante, divertido. A pontuação de 0 até 10 fica em 7.3