Code Black 2×06: Hero Complex

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“Você é mais do que as coisas ruins que aconteceram com você. Você é a graça que se segue.”

– Malaya

A cada três horas uma mulher é estuprada no Brasil. A cada três horas uma mulher tem sua privacidade e intimidade vilipendiada. A cada três horas uma mulher perde sua voz e o “não” é escutado como “sim”. A cada três horas uma mãe, uma filha, uma amiga, uma cidadã é agredida sexualmente. Daqui a três horas pode ser você ou essa pessoa que está do seu lado e você tanto ama.

Não importa a roupa, a idade, o local ou aparência física, o estupro não tem hora, não tem lugar e o estuprador não tem perfil. Pode ser um familiar, um amigo ou um desconhecido. Pode ser em casa, na igreja, em uma festa. Bêbada ou sóbria. Não importa. Para o estuprador isso nunca importa.

Tanto no dicionário comum, quanto no dicionário jurídico, estupro é o ato de forçar uma pessoa a praticar o ato sexual contra sua própria vontade, por meio do uso da violência. Entretanto, o que não se vê presente em nenhuma das definições é que o estupro não acaba depois da penetração. Não acaba depois do estuprador deixar a vítima no chão. A prática sexual pode ser a causa, mas muito mais do que isso, a vítima se torna o efeito.

Consciente, inconsciente; denunciando, não denunciando; com conhecido, com desconhecido; as situações podem ser das mais diversas, porém a humilhação e a dor é a mesma. As consequências de ser exposta, ser tocada, tirar fotos, fazer exames, contar para os familiares e amigos, sofrer com a mídia, sofrer com os olhares, sofrer com os comentários, ser culpada, perder o nome, perder a identidade, perder a noção de ser, perder a vontade de viver, não acabam e nem mesmo acabarão com uma possível condenação do culpado. Não posso afirmar, nem presumir que consigo entender metade da dor que as vítimas de estupro sofrem ou o medo constante das mulheres de serem agredidas sexualmente, e por isso, não o farei.

Mas sei como é ser criado como um homem. Sei como é ter uma sociedade dizendo que você deve ser viril, deve ser “machão”, deve ficar com todas as mulheres e deve mostrar seu poder e sua superioridade pelo sexo. “Aprendi” que essas mulheres bêbadas nas festas não servem para casar, mas servem para aproveitarmos a noite. “Aprendi” que quando mulher diz não, ela está se fazendo de difícil, mas na realidade quer sim. “Aprendi” que de primeira nunca se consegue, então que devo insistir, insistir e insistir, pois uma hora ela deixa. “Aprendi” que se ela está usando roupa curta, é piriguete; batom vermelho, safada; mexeu no cabelo, está afim; dançou até o chão, está tentando me seduzir. “Aprendi” que mulher é dramática e devo duvidar se alguma chamar meus amigos de babacas. “Aprendi” a respeitar quem se dá ao respeito e que com certeza essas que mostram a coxa, peito, bunda ou praticamente qualquer parte do corpo que minha mente deturpada possa relacionar a algo sexual, não é digna de respeito. “Aprendi” que devemos duvidar da mulher.

Aprendi mesmo que devemos ensinar os homens a respeitar e não as mulheres a temer.

Não é não. O corpo é dela, ela mostra o que quiser. Ela quis beber, direito dela. Ela caiu no chão, quem nunca? Em geral, ela fez algo porque quis e não invadiu a vida de ninguém? Fica na tua. A mulher não é objeto e o estupro não tem justificativa. Hétero, homossexual, cis, trans, sóbria, bêbada, de saia, de burca, pobre, rica, branca, negra, nenhuma mulher merece ser estuprada.

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Como se não bastasse tratar de estupro, “Hero Complex” também traz em pauta a Eutanásia. Diferente do primeiro assunto, esse não possui um correto e um errado, não há como julgar aqueles que decidem por fazer ou por não fazer e, em ambos os casos, podemos enumerar diversos argumentos pró e contra. Questões religiosas, perguntas reflexivas sobre o que é viver e o que é sobreviver entram em pauta e não existem respostas simples.

A atitude de familiares e amigos, como visto no episódio, é totalmente compreensível e por muitas vezes me vi sendo reproduzido. Em busca de não lidar com isso e tentar fazer a pessoa que amo esquecer essa ideia, também buscaria provavelmente não conversar sobre. Ao mesmo tempo é fácil se identificar com a personagem e entender que ela não está vivendo e que cada dia é mais um sofrimento do que um alívio. Poderia estender essa discussão por muito tempo, mas não chegaria a uma resposta certa, em uma resposta final. Não há como se colocar no lugar daquela pessoa que decide por fazer suicídio assistido, porém é muito peso pedir que alguém auxilie na morte de outro. E é por tamanha dificuldade que acredito ser de extrema importância a discussão sobre o assunto. Precisamos falar sobre a Eutanásia, precisamos discutir mais e precisamos fazer isso urgente.

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Por fim, Mike voltou finalmente à consciência e comemorei o acontecimento desse plot, mesmo que ele tenha sido totalmente ofuscado pelos outros casos da semana. Achei até interessante, para falar a verdade, que a série teve culhão de voltar com ele em um episódio que já tinha tudo para ser intenso, não guardando tal momento para sustentar outro episódio morno. A volta de Mike com certeza ainda trará muitas consequências e pode nos fazer voltar a sofrer, caso a cirurgia dê errado, porém espero e acredito que dessa vez tudo dará certo. Além disso, adorei ver de novo a relação dos irmãos e como um fortalece o outro.

E, dessa forma amigos, Code Black apresentou, em minha opinião, o melhor episódio da série até hoje. Trazendo a tona temas que transpassam a ficção e faz dessa review algo muito maior do que apenas uma review, pudemos refletir, aprender e ainda ver mais passados e lados humanos dos personagens. Acho que em nenhum episódio tivemos tantas personagens se envolvendo com os casos e mostrando que nem sempre é possível manter aquela fachada profissional no rosto. E é assim, com casos pesados, interessantes e tratados de maneira maravilhosa, personagens mostrando um lado que podemos identificar e um plot de início de temporada se desenvolvendo que agradeço a CBS por ter dado a chance de Code Black ter sua segunda temporada.

Black Tag:

– Qualquer semelhança com o caso da menina estuprada em uma festa da Universidade de Stanford não é mera coincidência (pelo menos não pra mim). As folhas no cabelo e outros fatos da situação remetem muito a tal caso. O relato da vítima segue abaixo nesses dois links, o primeiro em inglês e o segundo em português para quem não é Sasha:

– O caso do estupro além de se tratar de um tema importantíssimo, me jogou um plot twist na cara que nem acreditei. Fiquei de cara quando descobri que era aquele menino.

– Adorei o caso do comediante no meio para dar uma quebrada nessa dor que estava o episódio.

  • Camila Castro

    Que review foi essa Fernando? Meu Deus, quanta profundidade e sensibilidade. Eu leria um livro escrito por vc tranquilamente! O episódio foi intenso, profundo e colocou muitas pessoas para refletir sobre “a cultura do estrupo”. O que eu mais gostei foi a volta do Mike, um dos meus personagens favoritos desde a primeira temporada.

    • Fernando Coletinha

      Muito obrigado Camila!! Fico muito feliz de saber que você gostou.
      Também adoro o Mike, principalmente a relação dele com o Angus, estou louco para vê-los juntos de novo.

  • Anderson Luis

    Olha, sua review está ótima! Adorei a profundidade que você deu aos dois casos, principalmente do estupro. O que eu acho tão triste e horrível sobre isso é que é o único crime que a vítima tem que provar que não teve culpa e como a “cultura” dele faz vítima se sentir assim.
    Preciso dizer o quanto esse episódio me deixou desidratado. Só de lembrar a cena do rape kit e a da mãe se despedindo da filha já me enchem os olhos de lágrimas.

    • Fernando Coletinha

      Muito obrigado Anderson! Fico indignado ao ver o que fazem com a vítima nesses casos, mas o pior pra mim é escutar outras pessoas dizendo que não existe cultura do estupro e que ainda tentam justificar o estupro. Aquela cena do rape kit também me deixou no chão, esse episódio foi maravilhoso.

  • Nay Carneiro

    Nando, o que é que foi isso???
    Que texto maravilhoso, li 2 vezes e tô ó impressionada, que sensibilidade, que coisa bem estruturada. Nem sei o que falar, que abordagem.
    Sou SUA FÃ…

    • Fernando Coletinha

      Naaay, fico honrado e emocionado ao saber que você gostou tanto assim. Sua opinião importa muito pra mim. Obrigado!!