Code Black 2×02: Life and Limb

2
390

“We’re all exactly the same, every single one of us”

Sendo uma vida ou “apenas” um membro perdido, todos precisam de alguém do lado para lembrar de que não se pode desistir e que nem mesmo o pior dia de suas vidas pode determinar seus futuros e acabar com suas esperanças e propósitos. Code Black apresentou em seu segundo episódio uma variedade de situações em que a vontade de jogar tudo para o alto e fugir é mais do que tentadora, mas devemos admitir a derrota e gerar uma vitória a partir dela.

Iniciando o episódio com Angus e Mike foi possível visualizar que a percepção sempre é a realidade para aquele que está percebendo, e convencê-lo do contrário é quase impossível, mas necessário. O episódio nos posicionou de frente a uma encruzilhada, onde poderíamos escolher pelo mais cômodo e desejado ou o certo e difícil de encarar. Como um exemplo ao que vimos na temporada passada, James era um menino de 16/17 anos, amigo do capitão do time e pelo que tudo indica um ótimo garoto. Em um primeiro instante, nossa vontade é a de acreditar que há uma possibilidade de salvá-lo e que colocar uma “Black Tag” nele seria desistir, o que todos sabemos ser algo errado; mas o ponto colocado em questão foi, até quando o otimismo é saudável e não resultará em consequências graves?

“Life and Limb” iniciou trazendo temas antigos à tona novamente e focando em mostrar o despreparo ou choque dos residentes de primeiro ano ao caos instaurado no Angels Memorial. A primeira vista, o medo de repetirem os mesmos acontecimentos da 1ª temporada e passar de nostálgico para entediante, causou certa apreensão. Além disso, a falha grassa ao não conseguir dividir bem o air time dos personagens, esquecendo-se de Malaya, por exemplo, e focando em pequenos detalhes ocorridos com os novatos, gerou um incômodo, visto que no último episódio não houve sequer uma despedida para Christa e Neal, como se os dois não tivessem impactado no andamento da história.

Ainda nesse sentido, alguns personagens como Campbell e Heather continuam alheios a tudo que acontece e qualquer cena que dividam com o resto do elenco soa um pouco forçada. Além de não possuírem carisma ou terem agradado o público, essa junção do O.R. e da E.R. ainda não foi bem trabalhada, afinal é extremamente estranho que uma pessoa que nem mesmo sabe o que está acontecendo no caos da emergência, tenha o poder de supervisionar e tomar decisões extremas apenas pelo estrito ponto de vista construído por discursos soltos e situações mal explicadas.

Entretanto, se a série peca em contar a história de seus personagens regulares, em “Life and Limb”, os casos dos pacientes foram perfeitamente conduzidos e roubaram qualquer cena.

A perda de um membro se iguala para algumas pessoas a perda de um ente querido. Não é incomum escutarmos casos em que pacientes afirmam preferirem morrer do que terem que continuar a vida sem poder fazer aquilo que lhes dão vontade de acordar todo dia. Militares e atletas são exemplos clássicos de tal situação e assistir o desespero dessas pessoas quando precisam decidir o que eles consideram como vida, é sempre angustiante e interessante. 16 anos, popular, capitão do time e sobrecarregado de expectativas da família e dos amigos, a decisão imediata de Holden não foi estranha e refletiu o que acontece com várias pessoas nessa situação. Como continuar a viver, se minha vida é baseada em uma atividade que depende desse membro?

A superação necessária nesse momento ultrapassa a adaptação física, afetando o psicológico e fazendo a pessoa pensar que não possuí mais utilidade ou propósito. E é nesse ponto que a lição passada por Willis e consequentemente por Holden, transpassa a ficção e atinge milhares de pessoas em casa. Ninguém é definido por um membro. Ninguém tem que ganhar sempre. Aceitar uma derrota de cabeça erguida e transformá-la em oportunidade para inspirar os outros e gerar coisas boas, é tão importante quanto aquele gol no último segundo do último tempo.

Em contrapartida com Holden, Beth representou diversas pessoas que sofrem não por terem “perdido” um membro, mas pela incompreensão dos outros de entender que esse membro nunca foi parte dela. Se no início vemos um desconforto de Mario e “Sugar Bear” ao conversar com a paciente, em 5 segundos, Guthrie e Beth ensinam que a única pessoa com direito a se sentir desconfortável ali, é a própria paciente ao ter que escutar certos comentários e perguntas. Como bem dito por Beth, ela não se tornou mulher, ela sempre foi mulher. O transgênero não é uma pessoa que estava em casa, à toa e escolheu se tornar homem ou mulher. Não é uma escolha. Não é um pensamento científico em que se deva criar uma lógica para tentar entender. Antes de transgênero, essa pessoa já era homem ou mulher, independente do que seu órgão sexual ou a visão das outras pessoas indicasse.

Assistir uma atriz transgênero na televisão, imprimindo todas suas emoções e reflexos de sua vida é maravilhoso. A representatividade na televisão vem aumentando e o “simples” fato de não termos uma atriz cis no papel, me fez dar pulos de alegria enquanto assistia. Relembrando o discurso da Viola Davis no Emmy 2015, “você não pode ganhar um Emmy por papeis que não existem”. Existe uma linha, mesmo que o mundo já tenha avançado um pouco, que separa as pessoas e não dá oportunidades para que algumas contem suas histórias. A representatividade é necessária. A competência dessas pessoas existe. Elas apenas precisam de espaço e de voz. E se você der voz para essas pessoas, a arte criada e apresentada será de uma beleza imensurável.

Black Tags:

  • Interessante ver que os roteiristas decidiram contar mais sobre a vida do Mario. Espero que além do seu passado, os outros personagens também tenham suas histórias contadas.
  • Casos da semana emocionantes e inspiradores são maravilhosos, porém a série precisa melhorar seus plots regulares ou vai morrer de pouco em pouco.
  • Alguém tira o Campbell e deixa o Willis no poder, obrigado.
  • Volta Mike!!
  • Camila Castro

    Review incrível e detalhada. Dessa segunda temporada, estava gostando da interação entre Mikel e seu irmão, espero que ele volte e de preferência fixo, apesar de que o Tommy têm outras duas séries. No mais, acredito que a série ainda vai engrenar, o problema e a ausência do casal Christeal !

  • Anderson Luis

    Eu gostei bastante do episódio e também por fazer a gente conhecer um pouco mais os novos residentes. Já tô gostando da amizade de Noa e Charlotte.
    Também gostei de todos os casos e ainda mais do Willis.