Cleverman, a ficção como celebração da cultura

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Há diversas formas de celebrar e explorar a riqueza da cultura de um povo. Documentar toda forma de expressão da região, registrar os costumes e mencioná-los durante palestras, eventos, festas e livros são algumas. Outra seria utilizar do que já se sabe, do estudado, para criar algo novo, dando certa contribuição, mesmo que pequena, para a vida da cultura em questão. Nesse caso, qualquer artista pode fazer seu recorte, ao que chamamos de liberdade artística — nem sempre respeitosa, diga-se de passagem. A obra feita chega em outra cultura, é pintada com o comportamento e visão de mundo dessa nova sociedade e aos poucos ganha novas cores. Anos depois, pode ser que pode ser que desapareça a percepção de que nosso álbum favorito, nosso quadrinho ou filme favorito é uma celebração, de certa forma, da cultura de um povo que nunca ouvimos falar, ou nunca pesquisamos a fundo de maneira que possamos retribuir. Isso acontece bastante com a cultura aborígene.

“Os Aborígenes da Austrália são a mais antiga cultura sobrevivente na Terra com mais de 60.000 anos de histórias conhecidas como O Tempo do Sonho (“The Dreaming”). O Tempo do Sonho é um reino espiritual que liga o passado, o presente e o futuro. Ele é habitado por criaturas extraordinárias e espíritos.”

— Introdução que abre o primeiro episódio de Cleverman.

O Tempo do Sonho, assim como outros aspectos e conceitos da cultura aborígene, foi explorado com mais frequência depois da década de setenta e oitenta, e hoje está muito presente, por mais que não saibamos disso. Para se ter uma ideia, desde Star Trek, passando por Kate Bush, até as histórias de The Sandman, famoso quadrinho de Neil Geiman, utilizam de conceitos e aspectos desse reino. (É difícil descrever com esse substantivo, por conta de ser mais um conceito de uma era/plano do que uma terra no sentido físico.)   Acreditam ainda, segundo o restante da introdução, que no centro dele “há o Cleverman (que podemos traduzir como “O Sábio”, diante da acepção que essa palavra tem em nosso idioma), um homem poderoso que é o condutor entre o Tempo do Sonho e o mundo real. Além de ser retratada em diversos documentários e trabalhos de ficção, essa crença chegou à televisão em junho desse ano com Cleverman, que teve sua primeira temporada transmitida pela ABC na Austrália e a SundanceTV nos Estados Unidos.

Da esquerda para a direita os atores Iain Glen, Hunter Page-Lochard e Rob Collins, que protagonizam a série.
Da esquerda para a direita os atores Iain Glen, Hunter Page-Lochard e Rob Collins, que protagonizam a série.

Cleverman foi criado pelo produtor Ryan Griffen, que tem descendência aborígene (o que, de certa forma, faz a produção ganhar muitos pontos) e queria que algo dessa cultura chegasse aos jovens como histórias de super-heróis. Em entrevista ao The Guardian, ele contou um pouco sobre sua experiência e traumas de infância, quando sofreu discriminação por ser um aborígene de pele branca entre os seus — o que reflete no protagonista da história, que passou pelas mesmas situações. Ryan conta, ainda, que o processo de escrita do roteiro contou com o auxílio de anciãos, que lhe contaram diversas histórias pessoalmente, as quais ele se comprometeu em respeitar — tarefa difícil quando uma série se inclina tanto à fantasia e ficção científica quanto a que ele tinha em mente.

A série conta a história de dois irmãos, que foram criados juntos, mas afastados pelas diferenças, e que mantêm um relacionamento complicado. Tudo piora ainda mais quando o caçula (Koen, interpretado pelo ator Hunter Page-Lochard), nosso protagonista, recebe o dom passado através de gerações e que o transforma no Cleverman atual. A história se passa em um futuro próximo, seis meses após a aparição dos Hairies (Cabeludos? Peludos?), criaturas que sempre existiram entre os humanos, mas que só agora decidiram revelar-se. Por mais que lembrem pessoas comuns quando estão de pelos aparados (nunca por escolha), eles têm diferenças não só no DNA, como extraordinária força física. A maioria das pessoas não lida muito bem com a situação e escolhe ver essas criaturas como ameaça, chamando-os de sub-humanos e restringindo seu espaço a uma área chamada de A Zona, que tem poucos recursos e se mantém com a administração de Waruu (interpretado pelo ator Rob Collins), o irmão mais velho e responsável por diversas decisões questionáveis ao longo do enredo.

Em cena: o ator Tysan Townei interpreta Djukara, um hairy — criatura que convive entre as pessoas.
Em cena: o ator Tysan Townei interpreta Djukara, um hairy — criatura que convive entre as pessoas.

Além dos irmãos, acompanhamos uma família de hairies enquanto são divididos, explorados e maltratados por uma sociedade que não está preparada para recebê-los. Seguir seus passos, devo dizer, acaba se tornando uma das coisas mais interessantes a respeito da série, e algumas das melhores cenas se passam com eles — bem longe de toda a ideia de super-herói, que é legal, mas que acaba saindo bem desajeitada.

Na composição do elenco ainda temos: Ryan Corr (alguns reconhecerão, eu incluso, como o protagonista de Holding the Man, filme de 2015 que chegou recentemente à Netflix Brasil — aliás, vocês já viram esse filme?), interpretando Blair Finch, amigo do protagonista, mas sem tanta utilidade dentro da narrativa; Frances O’Connor (Invocação do Mal 2), interpretando Charlotte Cleary, uma doutora que trabalha em uma clínica pública dentro da Zona e cujo destino é bizarro e angustiante; Iain Glen, possivelmente o rosto mais reconhecido no seriado entre os seriemaníacos, por conta de seu trabalho em Game of Thrones como Jorah Mormont (aquele que trai a Mãe dos Dragões). Aqui, o ator interpreta Jarrod Slade, milionário que faz experiências bizarras com os Hairies e que deseja exercer certo domínio sobre o Cleverman.

Em cena: a atriz Tasma Walton interpreta Araluen, uma hairy, e protagoniza uma das subtramas mais fortes da temporada.
Em cena: a atriz Tasma Walton interpreta Araluen, uma hairy, e protagoniza uma das subtramas mais fortes da temporada.

Parece muita coisa? Falta mencionar uma criatura que arranca o coração das pessoas, e talvez a justificativa para a série ter aparecido por aqui. Essa criatura é o grande desafio para nosso herói nessa primeira temporada, obrigando-o a aceitar os ensinamentos e crenças de sua descendência para salvar sua vida e a de todos ao seu redor.

Na produção, a maquiagem e customização das personagens são boas e compensam os efeitos especiais que são baratos e mal feitos, principalmente quanto ao monstro mencionado no último parágrafo. Há um vídeo muito interessante no canal da SundanceTV no YouTube que mostra o processo de criação dos Hairies e que resume de forma sucinta a qualidade e trabalho dos profissionais envolvidos.

Algo interessante em Cleverman é o quão consciente da contemporaneidade de nossa sociedade o texto é. Por mais didático que soe às vezes, o roteiro fala sobre assuntos que precisam ser discutidos, através de uma analogia óbvia, mas que não deixa de ser bem-vinda. A série dialoga com o processo de desconstrução que os militantes fazem e fala sobre diversas questões, como racismo, discriminação e sexismo. Assistindo aos episódios, é difícil não imaginar que os Hairies receberiam tratamento parecido. Acontece de tudo com eles, desde tortura e protestos à prostituição e assassinatos. É exagerado, mas talvez precise ser.

Cena do último episódio da primeira temporada. Aquele momento da lição de moral em histórias de aventura.
Cena do último episódio da primeira temporada. Aquele momento da lição de moral em histórias de aventura.

A primeira temporada é composta por seis episódios, tendo sido concluída em julho.  O primeiro episódio é bagunçado e demora a nos fisgar, então, além de pedir que quem quer que fique interessado pela história ignore o trailer (que é bem ruim), preciso pedir que relevem-no — assim como sempre peço quanto a primeira e segunda temporada de Breaking Bad durante minhas recomendações. Por mais que tenha cara de baixo orçamento, a série conta com bons atores e boas personagens, mesmo que o protagonista não seja uma delas. A série transita de forma brusca entre vários gêneros, o que pode incomodar naqueles que não gostam disso. Como drama e ficção científica, ela convence, então acho que isso já é o bastante. Algumas coisas sobram dentro da narrativa e poderiam ter sido eliminadas, como uma ancestral que veio do Tempo do Sono, mas que não tem contribuição significativa na história.

O último episódio não é o melhor da série e termina com uma cena em aberto, mas resolve seus conflitos de forma satisfatória. A recepção da série foi diversificada, tendendo para o positivo. Na maioria dos casos, os críticos reconhecem a força do conceito principal e a importância do pioneirismo dessa série. Talvez aqui o conceito seja melhor do que o material entregue, afinal, qualquer pessoa que se proponha a pesquisar sobre os aborígenes vai se deparar com histórias bem mais interessantes. Renovada para sua segunda temporada, espero que a produção acerte seu tom, corrija alguns problemas de ritmo e escrita, esqueça esses efeitos especiais desastrosos e continue a dialogar com questões sociais — seu maior mérito.

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#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

  • Rei Gelado

    Não é fácil simpatizar com a série logo de início, especialmente porque o protagonista é um pé no saco. mas conforme vai passando e ele aceitando sua condição de Clevermen a série vai se tornando mais interessante.

  • Libriane

    Achei a série incrível. Nos tirou das histórias confortáveis, norte americanas.
    Enquanto Westworld (que tb gosto), mostra atores premiados e conhecidos do grande público,Cleverman traz dois ou três atores conhecidos e o restante do elenco, totalmente como novidade para a maioria de nós. E foi justamente isso que eu amei. Amo essa ousadia, amo esses desafios.