A Chegada, uma obra ímpar, que foge totalmente do padrão atual

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A origem da linguagem que temos hoje é uma incógnita. Podemos traçar os embriões linguísticos, os grandes grupos fonéticos, acompanhar a migração de um idioma através da conquista de novos territórios, mas aquele ponto básico, onde a “primeira linguagem” surgiu é apenas suposição. Talvez o mito bíblico da “Torre de Babel” seja plausível em certos pontos, mas a capacidade de tantas línguas existirem é algo ao mesmo tempo fascinante e assustador. A língua serve então tanto como barreira quanto arma, influenciando milhares de outros processos entre esses polos. A Chegada (Arrival, 2016), novo filme de Denis Villeneuve, é muito mais que uma ficção comum, é um exercício visual sobre a comunicação e sobre o quanto estamos dispostos a que ela modifique nossa cognição.

A Dra. Louise Banks (Amy Adams) é a referência mundial para tradução e interpretação de línguas. Quando uma espécie alienígena chega sem aviso ao nosso planeta, ela em conjunto com Ian Donnelly (Jeremy Renner) terá de descobrir as reais intenções de nossos visitantes ao mesmo tempo em que entram em contato com sua cultura e sua apercepção, mudando totalmente como pessoa no interim.

Baseado no conto “Story of Your Life” de Ted Chiang, o roteiro de Eric Heisserer trabalha de modo diluído o cerne da obra literária, mantendo os pontos principais e adaptando isso ao espectador leigo. Isso não quer dizer que o teor contemplativo se perdeu, muito pelo contrário, é um dos alicerces da obra de Villeneuve. Quem conhece bem o trabalho do diretor canadense sabe seu apreço pelo teor psicológico do personagem em detrimento do uso de ação. Nesse caso “A Chegada” se aproxima mais do tom cerebral contemplativo de “2001: Uma Odisseia no Espaço” do que o alegre e colorido espetáculo visual de “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”. Mesmo que o tema principal seja o “primeiro contato”, é com conceitos cascudos como o determinismo, linguagem e a “Hipótese de Sapir-Whorf”, que a obra de Chiang ganha volume e magnetismo.

A Chegada
A Chegada

Se por um lado temos um diretor competente regendo a história, do outro temos um elenco que se encaixa perfeitamente nos papéis principais. Adams está soberba numa atuação contida, explicitando a confusão e a adaptação por toda a situação, enquanto tenta se manter firme no meio do tornado emocional em que se encontra. Renner, fugindo do seu habitual “papel de ação”, consegue dosar bem os momentos de drama e contemplação, ao mesmo tempo em que convence no papel de um cientista. Forest Whitaker (Coronel Weber) e Michael Stuhlbarg (Agente Halpern) completam o elenco de maior destaque. No entanto, talvez o maior problema da adaptação seja as liberdades criativas tomadas para dar um escopo maior ao filme. Enquanto a contraparte escrita se apoiava bastante na relatividade linguística de Sapir-Whorf (a capacidade de modificar a visão de mundo de acordo com a linguagem que se aprende/ utiliza) numa narrativa concisa e fechada, A Chegada acaba pecando numa resolução deveras emotiva que foge de certo modo do rumo proposto até então em prol da construção de um panorama maior e mais rico de significados.

Mesmo com esse pormenor, Villeneuve consegue entregar uma obra ímpar, que foge totalmente do padrão atual de ficção científica e que vai buscar nos clássicos a inspiração para o ritmo e soluções narrativas. Talvez seja melhor ir às cegas assistir ao filme sem ler o conto antes, já que aqui essa decisão acabaria servindo como um “falso cognato”, quando palavras tem a mesma escrita, mas significados diferentes em duas línguas. O que ele criou aqui com certeza ajudará sua empreitada em “Blade Runner”. Ecoando obras anteriores (há uma cena que lembrou bastante “O Homem Duplicado”) ao mesmo tempo que galga um novo passo em direção a excelência, Villeneuve constrói uma obra visceralmente emotiva em meio a esterilidade científica e cinematográfica atual.

* O Série Maníacos assistiu A Chegada a convite da Sony Pictures Brasil

> Bastidores do The X-Factor Brasil com Fe Paes Leme!

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  • Bruno

    Bem, o trailer segere um filme de ação e não um thriller psicologico… mas eu confio mais no review do SM do que no trailer rsrs

    • Flavio Batista

      Engraçado q mesmo com a grandiosidade do trailer e correria, eu ja tive a impressão q seria um filme mais psicologico

      • Bruno

        E eu vi o filme e posso dizer, MUITO MUITO BOM. Tem apenas algumas poucas sequências de ação, as memórias da protagonista soam meio repetitivas mas somente no final é que percebemos quanto tem a ver com o desenvolvimento da história.

        Confesso que não esperava o desfecho (o que num mundo de filmes altamente previsíveis chega a surpreender um pouco). Ficou um gosto de quero mais.

        Reviewer de parabéns, conseguiu captar toda a essência sem deixar escapar nenhum spoiler.

        • Flavio Batista

          nao faz isso mano… to ansiosissimo pra ver esse filme

    • Lucas Fernandes
  • Ronaldo

    Ahhh vim querendo spoilers na review! O filme tem uma premissa muito interessante, quero conferir.

  • Ramon Vitor

    Tanta vontade desse filme, que demora para sair.

  • Pronatec Eepadm

    Parece-me um bom cineasta, vi o “Homem duplicado” achei interessante, bem escrito, um conto psicológico bem criativo, o cara que queria ser o outro até matá-lo. Parece mesmo com os filmes do Kubrick, bem psicológicos e permitem interpretações múltiplas.

    • willian_as

      Muito bom mesmo. Assisti quatro filmes seus (talvez os mais conhecidos): Sicario, Os Suspeitos, O Homem Duplicado e seu melhor filme pra mim, Incêndios. Recomendo todos.

    • Jord Son

      outros filmagens boas são Prisoners, Enemy dirigidos por esse diretor que uma bom radar para filmes

  • Alan

    Já que esse ano não temos Aronofsky, Wes Anderson e Joon-ho Bong e o filme dos irmãos Coen foi mediano e do Chan-wook Park bem abaixo da média. O novo filme do Villeneuve é o meu filme mais aguardado. Sou muito fã do diretor canadense, já vi todos os seus longas só não gostei muito de Sicario e Un 32 août sur terre de resto os demais filmes são sensacionais. Gosto tanto do diretor que irei ver um filme sobre uma temática que eu não tenho o mínimo desejo de ver.

  • Jord Son

    Arrival é um filmaço que faz seu público reavaliar o conceito de humanidade, e a forma como o impacto de nossas experiências pode moldar a linha de tempo de nossa existência. Tem elementos de filmes The contact, Close Encounters, Solares, Monsters sob a direção de um diretor em auge de carreira apresenta pontuação 9,4

  • Anderson Butilheiro

    Ia fazer um comentário muito parecido com o comentário abaixo. O filme é excelente e me surpreendeu muito em diversos aspectos, talvez sendo o melhor filme do ano, pra mim. Porém, ele não é exatamente o primeiro do gênero e nem será o último. O filme lembra, em muitos momentos, Interestelar. O arco principal então é parecidíssimo. Mas também há muitas semelhanças com filmes como Contato, Mr Nobody, Solaris e etc. Aliás, acho que Contato seja exatamente onde a memória me levou mais vezes durante o filme e, talvez por isso, esperava certas coisas do filme.

  • Klâster Van Jones

    Após conferir ¨Arrival¨, desse circuito comercial redundante, posso afirmar que vi o primeiro filme com caráter de 2016. Algo bom estava faltando para crer que ainda é possível ser original perante o populismo, o que triunfa com maestria nesse novo longa de Villeneuve.

  • Vitor RC

    Wow, que texto gostoso de ler Lucas! parabéns pela review.
    Quanto ao filme, é lindo e cativante, bem sustentado e resolvido. Merece todo o boca a boca que recebeu e deve, sem dúvida, entrar em vários tops de melhores do ano.