Cães de Guerra

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Guerra é lucro.

A história de David Packouz e Efraim Diveroli é tão mirabolante que chega a parecer falsa. Dois jovens de Miami, nos seus 20 e poucos anos, que conseguem dar um golpe no governo americano no valor de 300 milhões de dólares, vendendo armas e munição para a Guerra do Iraque. Não é de se estranhar que Hollywood tenha levado essa história para as telas, mas sim porque demorou tanto a realizá-la.  “Cães de Guerra” (War Dogs, 2016) é um misto de filme de guerra, drama e comédia, que mostra que às vezes a vida real é muito mais estranha (e insólita) do que a ficção.

Todd Philips (da Trilogia “Se Beber, Não Case”) cria comédia a partir do ridículo da situação. A venda de armas e os custos de uma guerra são destrinchadas em tela de um modo simples e entendível, coisa que Adam McKay não conseguiu realizar em “A Grande Aposta”. Aqui em nenhum momento o espectador se perde em meio a explicações cheias de termos técnicos, a todo momento informações são jogadas, mas facilmente assimiladas tornando a experiência no mínimo prazerosa. A estrutura episódica também ajuda, delimitando momentos marcantes num ritmo de fácil acompanhamento. No entanto, fica evidente que o filme preza pela visão de Packouz da história, vilanizando um pouco a figura de Diveroli (Packouz faz uma participação no filme, como o cantor na casa de repouso).

Além do absurdo da situação, acompanhamos o absurdo dos gastos necessários para se manter um conflito (infundado, diga-se de passagem) em movimento: 17,500U$ para equipar um soldado com os itens básicos, alguns bilhões jogados fora só para manter ar condicionados ligados nas bases espalhadas pelo mundo. O mais incrível de todos é o “Ebay” do governo para a compra de armas em licitações onde qualquer pessoa pode fornecer o que for pedido se assim conseguir cumprir o acordo. As motivações da guerra ficam claras: não uma fonte de recursos, mas sim uma indústria que gera bilhões a empresas armamentistas. Puro e simples lucro, seja ele legal ou ilegal.

Miles Teller (Packouz) e Jonah Hill (Diveroli, gordinho novamente) entregam atuações sólidas. Teller continua com a cara de bom moço, mesmo quando o papel pede o contrário. Hill alopra de vez numa mistura de seus personagens de “O Lobo de Wall Street” e “Anjos da Lei” com homenagem a Al Pacino em “Scarface”, soando exagerado em alguns momentos da película, mas nada que atrapalhe. E Bradley Cooper interpreta Henry Girard, um traficante de armas que acaba colocando a dupla numa enrascada homérica. Marrocos e Romênia fazem as vezes de Jordânia, Iraque e Albânia.

Mesmo evocando o belicismo constante do americano, “Cães de Guerra” é na verdade uma peça antibélica. Uma crítica armada (não resisti ao trocadilho) ao consumo da indústria da guerra. A criação da AEY e sua derrocada com a venda de balas chinesas de 42 anos de idade, não é mais do que um sintoma de uma sociedade baseada no conflito e na tomada do que quer a força. Packouz e Diveroli caíram, mas muitos ainda permanecem sugando o doce néctar do dinheiro que advém do sangue derramado em terras longes de casa. Impessoal, atemporal. Na indústria armamentista guerra é lucro. Não espere a paz no mundo nem tão cedo.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Warner Bros. Pictures Brasil

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  • Jordison Francisco

    não sabe diferenciar humor de sátira, e não é incisivo e cínico o suficiente para ir além de lapsos de diversão superficial. De 0 a 10 a nota é 5,6.