BrainDead e a arte que não se omite

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 A arte sempre será relacionada a expressar-se. Certo é que cada um tem sua definição de arte e explica com as próprias palavras qual sua função e importância — eu mesmo tenho a minha. Certo é que ela se reflete na cultura de qualquer povo e o define de forma indireta. O nosso comportamento contemporâneo, nosso modo de assimilar e questionar a arte acabou por separá-la em diversas categorias. Com o tempo se acostumou a tirar o que poderia ser afirmado como arte de algumas coisas e nos curvamos ao entretenimento — sempre essa ideia de que a arte não pode entreter. Como o entretenimento dialoga diretamente com nossa rotina, logo, ele se tornou responsável por lidar com questões, ou nos distrair… Isso, a distração! A arte sempre à parte, sempre distante dos debates, fazendo esforço aqui ou ali para participar, para provocar, mas nunca creditada da forma que deveria. Mas a arte questiona e a arte não pode e não deve (olha eu aqui já utilizando de minhas próprias regras) se omitir.

Sou apaixonado pela arte que confronta a realidade, e talvez por isso o realismo, movimento literário, tenha me despertado atenção logo de primeira. Esse desejo de encontrar o que esteja insatisfeito, aquele que também não se encaixa e aquele que tem algo a dizer me perseguiu depois do ensino médio, depois de encontrar Machado e me apaixonar por suas mulheres. Passei a cobrar isso de tudo, seja na música, seja nos filmes, seja nas séries… Sim, nas séries, por que não? É por isso que acabei apaixonado por versões contemporâneas de questionadores clássicos como Lily Allen, que abre seu segundo álbum falando que todos usam drogas e deveríamos aceitar isso (a realidade do fato, não o hábito) ou tantos outros exemplos. Há alguns meses, durante uma peça, notei que diversos atores/personagens transitavam entre falas políticas e engajadas sobre a situação em nosso país. Concordando ou não, era preciso assumir que o Teatro não está se omitindo (talvez nunca tenha feito isso), assim como a música, assim como a nova temporada de Orange parou para falar sobre temas importantes, por mais que tenha feito isso de sua forma controvérsia. Assim como Oz fez — e por esse motivo não só foi a primeira série que acompanhei semanalmente do começo ao fim, como figura até hoje na minha lista de favoritas. Assim como Braindead fez, por mais que tenha se vestido de “entretenimento”, forma inteligente para criticar ou apontar, herança da época da Sátira, mas bem disfarçada: às vezes é preciso que ninguém diga que é uma crítica para que a crítica seja ouvida. Tanto melhor, eu também amo a sutilidade!

“No ano de 2016, havia um senso crescente de que as pessoas estavam enlouquecendo, e ninguém sabia o porquê… Até agora.”

— prólogo do primeiro episódio de BrainDead.

A Série:

Para quem não tenha parado para sequer ler a sinopse da série, BrainDead fala sobre alienígenas que vêm à Terra, entram no cérebro das pessoas em forma de insetos e começam a manipulá-las para que elas percam o equilíbrio, tanto físico quanto mental, tornando-se agressivas e entuasiastas por questões políticas. Suficientemente entuiastas para fazer suas cabeças explodirem — literalmente. Essa sinopse parece piada de conversa de bar, depois do expediente, quando alguém do grupo fala que somente alienígenas comedores de cérebros explicariam a situação política atual, mas é realmente o que temos como trama principal. Acompanhamos, então, como esses insetos se infiltrarão no meio político norte-americano, seus planos bizarros e como estes se darão.

BrainDead possui diversas cenas que a ajudam a se classificar como uma série de horror.
BrainDead possui diversas cenas que a ajudam a se classificar como uma série de horror.

Nossa heroína é Laurel Healy (interpretada pela Mary Elizabeth Winstead, a protagonista de Premonição 3 e, mais recentemente, Rua Cloverfield, 10),  a irmã do senador Luke Healy (Danny Pino, que eu reconheço das melancólicas Cold Case e Law & Order: SVU), uma cineasta independente e que deseja terminar seu documentário. Sem dinheiro para finalizá-lo, ela aceita trabalhar no escritório do irmão como proposta de seu pai, que coloca esta como condição para lhe arrumar metade do dinheiro que lhe falta. (Parênteses para falar que ela aceita trabalhar seis meses por cem mil dólares / trezentos mil reais, fazendo caretas).

BrainDead é protagonizada por Mary Elizabeth Winstead como Laurel Healy e Danny Pino como Luke Healy.
BrainDead é protagonizada por Mary Elizabeth Winstead como Laurel Healy e Danny Pino como Luke Healy.

Laurel é a protagonista perfeita para a história, não só porque a atriz, além de ser muito competente, tem muito carisma: a personagem odeia política, assim como boa parte de nós, e precisa aprender muito rápido como jogar as cartas e se impor naquele meio do qual ela aceitou fazer parte. Assim como ela vai aprendendo aos poucos como tudo funciona, nós também vamos, deixando que ela nos conduza.

A série foi criada por Robert King e Michelle King, responsáveiw por The Good Wife, minha série favorita, e precisamos de um parágrafo inteiro para falar sobre isso. Agradecido pelo casal de escritores e produtores terem me dado a série sobre a boa esposa, aceitei assistir BrainDead, confiante, mesmo quando não tínhamos muito a respeito, além de um argumento bizarro. Confiava que eles eram talentosos o bastante para tirar algo bom disso, o que de fato fizeram. O que precisa ser dito, principalmente para aqueles que não viram sequer o piloto dessa nova investida deles, é que a série respira muito The Good Wife. A estrutura narrativa é a mesma. O posicionamento das câmeras, a direção de atores, os diálogos, a trilha sonora, diversos atores, algumas introduções dos episódios… Não poderia ser diferente, afinal, quase toda a equipe técnica migrou de uma série para a outra — é só checar. Isso é bom, afinal, tecnicamente TGW era perfeita. Com o tempo, entretanto, essa forma de utilizar do mesmo modo para contar histórias diferentes acaba sufocando o público. É inevitável que cheguemos à comparação, e isso não faz bem ao show: BrainDead é inferior em absolutamente tudo. Talvez, então, sua experiência seja estragada pelo nível de amor que sinta pela história de Alicia Florrick

Os dois irmãos tem subtramas separadas, por mais que elas se comuniquem ao passar dos episódios. Para acompanhá-los temos Rochelle Daudier (Nikki M. James, The Good Wife) e Gustav (Johnny Ray Gill), como, respectivamente, uma doutora e um cientista, ambos impulsionados a descobrir como esses insetos funcionam e como pará-los. Enquanto isso, Luke lida com os senadores democratas (seu partido) e republicanos — ambos os partidos com infectados, por mais que ele não saiba. No lado dos republicanos, temos Red, uma das melhores coisas em BrainDead, e interpretado pelo premiado ator Tony Shalhoub, o Monk de Monk, que está totalmente entregue ao papel. Ou próprio partido de Luke, Ella Pollack (Jan Maxwell), senadora que se torna obcecada por desenhar animais quando infectadas, e outra excelente contribuição ao programa.

Nosso trio de heróis: Rochelle (Nikki M. James), Gustav (Johnny Ray Gill) e Laurel (Mary Elizabeth Winstead)
Nosso trio de heróis: Rochelle (Nikki M. James), Gustav (Johnny Ray Gill) e Laurel (Mary Elizabeth Winstead)
A Temporada:

BrainDead fez uma temporada muito divertida, contando com treze episódios e com uma preocupação muito visível de estabelecer começo, meio e fim na sua trama. Na reta final, e bem antes das notícias de que cada ator estava seguindo para um projeto diferente, fica a sensação de que a história está se concluindo. Uma temporada é suficiente para contar essa história relativamente simples, e, diferente de uma The Good Wife que se encerrou bem mal e às pressas, aqui o desfecho é bem satisfatório.

A trama lembra bastante o filme The Faculty (Prova Final aqui no Brasil), estrelado pelo Elijah Wood, mas sem o comprometimento para o absurdo, no qual o terceiro ato do filme se atira bem despreocupado. Aliás, esse é o maior defeito da série. BrainDead é absurdamente pontual e ácida em alguns momentos, e é aí que está o seu brilho. A série consegue extrair humor das coisas mais absurdas possíveis e é nas falas mais contraditórias (e bem realistas em era de comentários de YouTube) de suas personagens que se sobressai.

Tony Shalhoub interpreta Red, uma das melhores e mais absurdas coisas na série.
Tony Shalhoub interpreta Red, uma das melhores e mais absurdas coisas na série.

O Piloto (ou The Insanity Principle: How Extremism in Politics Is Threatening Democracy in the 21st Century) é disparado o melhor episódio, o que é sempre absurdo, mas acontece com muita frequência entre as séries. Não é preciso assistir muito, se você não gostou do primeiro episódio, a série não é para você. Algumas séries ultrapassam essa ideia, mas a verdade é que outras têm um público bem seleto. Nos primeiros episódios, o roteiro se preocupa bastante em deixar o telespectador desconfortável lhe situando com a realidade política do país — e o país norte-americano soa bem parecido com algumas figuras que temos por aqui. A série coloca diversas entrevistas dos candidatos entre as cenas, no que parece quase excesso, e isso serve perfeitamente para que entendamos seu propósito. Depois do terceiro/quarto, ela abandona isso e perde muitos pontos.

Em cena: Mary Elizabeth Winstead e cabeças explodindo — literalmente.
Em cena: Mary Elizabeth Winstead e cabeças explodindo — literalmente.

A série é, ainda, uma grande mistura de diversos gêneros. Com a estrutura narrativa de drama, dialoga sempre com a comédia (não só como alívio cômico) e ganha ares de horror em diversas cenas — aquele tipo de horror que ajudou a popularizar e a afundar o gênero no cinema. Há cenas nojentas, perturbadoras e aflitivas o suficiente para que a produção possa ser vista também como horror.

Vale a pena destacar o previously, que é feito através de música, com a criatividade do compositor se superando a cada dia, ao ponto de abusar da metalinguística e invadir o episódio.

Os atores são ótimos, e possuem boa química, principalmente Mary Elizabeth e Aaron Tveit, que, por sua vez, interpreta Gareth Ritter, um assessor do já citado Red. Seria muito fácil tornar ambos um casal chato que não consegue nos interessar, mas não é o que acontece, e mesmo os flertes bobos entre eles são divertidos de assistir. O elenco recebe o apoio de Zach Grenier (o David Lee de The Good Wife), interpretando uma personagem que pouco contribui e pouco chama a atenção, o que só nos faz ter saudade do advogado politicamente incorreto.

Em cena: os atores Aaron Tveit, que interpreta Gareth Ritter e a atriz Mary Elizabeth Winstead
Em cena: os atores Aaron Tveit, que interpreta Gareth Ritter e a atriz Mary Elizabeth Winstead

No meio da temporada, BrainDead decidi estagnar sua trama e conversar sobre política, o que é uma boa iniciativa, mas que nem sempre rende um bom episódio. Destacam-se, além dos três primeiros episódios, o sexto episódio (o nome é muito grande e o texto já está enorme), quando Laurel é infectada e precisa da ajuda de seus dois amigos para combater as ações dos insetos em seu cérebro, o sétimo episódio, quando Laurel é presa pelo FBI e os senadores precisam votar sobre utilizar ou não de tortura (eles dão outro nome, mas é tortura) durante o interrogatório e o décimo primeiro, quando nosso trio de heróis coloca em prática um plano para destruir a rainha dos insetos. Os dois últimos são fracos em comparação a estes, mas encerram bem a trama.

Além disso, a série fala sobre algo que Outcast fala também, só que não de forma tão profunda. Os infectados são curados de doenças e às vezes estão melhor desse modo, pelo menos aparentemente. Por que curá-los? Fora isso, temos a forma de se livrar dos insetos, que gera cenas sensíveis, que parecem bagunçadas dentro da série. Fora isso, temos cenas interessantes e divertidas, como Red dando um novo destino à frase “não gostou, atira na minha cara”.

Em cena: Danny Pinno, interpretando Luke Healy. Carapuças a gosto.
Em cena: Danny Pinno, interpretando Luke Healy. Carapuças a gosto.

A série teve uma recepção dividida entre os críticos, mas que apontava para o positivo, enquanto um veículo chamou o conceito de “inteligente”, outro chamou de “vago”. A audiência respondeu da mesma forma que respondeu à The Good Wife, e aqui não temos premiações para salvá-la, o que resultou em seu cancelamento. Creio que com dez episódios a série teria se saído ainda melhor, mas a recomendação é certa, principalmente porque BrainDead é o horror assumindo seu papel social — sim, ele tem, mas fica para outro texto. A série estabelece um diálogo, e isso é mais do que a maioria das produções faz atualmente. Falta falar que talvez a série funcione melhor para quem entenda mais de política, mas não tem o nível de complexidade de House of Cards, que nós não entendemos nada, mas é maravilhosa. Antes de ser ser uma celebração da arte que não se omite, BrainDead é uma celebração do absurdo de nossa realidade — é muito absurdo essa realidade que abriga Trump como possibilidade na presidência da uma das nações mais poderosas do mundo.

ps:

  • “Americanos não gostam de tortura. É por isso que você precisa chamar de outra coisa.”
  • Laurel: Eu não sei o que eu estou fazendo aqui metade do tempo [sobre trabalhar para o senador]

Luke: Bem, isso é bem melhor do que boa parte das pessoas por aqui.

  • Gareth: Dizem que você dormiu com ele [Michael Moore] para obter uma boa nota.

Laurel: Eles te mostraram qual foi a nota?

(os Kings sabem escrever diálogos.)

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#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

  • Cristian Baier

    Todas as cenas envolvendo o Red eram ótimas, especialmente quando ele chamava Laurel de Lana. Acho que faltou vc citar o fato de “You Might Think” tocar o tempo todo. Acabei viciando na música.

  • Flavio Batista

    Excelente Review! tava com vontade de ver por causa do Monk, e depois do texto acho q vou conferir. Parabens!

  • vinland

    A trama da serie, lembra tambem a de um manga classico, chamado Kiseijuu/Parasyte. Por coincidencia, acabei de ver ela ontem, e achei muito divertida. Vale a pena !

  • Não terminei de ler a crítica pra não pegar nenhum spoiler, eu estou no episódio 06 e Braindead já é uma das séries que pretendo guardar para todo o sempre, adorei seu texto, ótimo tudo, aliás você deve ser uma pessoa sensacional ahushajs

  • LUIS HEBER

    Uma grata surpresa…soube usar as bizarrices da política americana de uma forma inteligente e cretinamente cômica.

    Destaque para o show que deu Tony Shalhoub…se bem q todo o elenco se destacou.

    Uma pena a não renovação…mas talvez tenha sido melhor.

  • Lee

    A crítica não levou em conta que a série é uma grande sátira da política americana e que os “alienígenas comedores de cérebros” são apenas uma metáfora para apontar o quão absurdo são os discursos extremistas que encontramos nos meios políticos.
    Por isso achei estranho apontar que dizer que “BrainDead decide estagnar sua trama e conversar sobre política, o que é uma boa iniciativa, mas que nem sempre rende um bom episódio”, visto que esse é o objetivo da série o tempo todo.
    Além disso, em nada levou em conta o fato de que cada episódio utilizou como base temática um fato real e absurdo que ocorreu no congresso americano.
    E sobre o gênero da série, no meu ponto de vista, achei comédia do início ao fim… hehehehehe

    • Sim, Lee, essa parte ficou meio confusa e não consegui me expressar muito bem.

      O que quis dizer é que enquanto nos primeiros episódios fica mais evidente a proposta da série, com aquelas entrevistas do Trump absurdas entre as cenas, lá pelo meio, eles abandonam isso e resolvem discutir sobre politicagem, sem voltar a mencionar com mais força os acontecimentos atuais, focando em assuntos mais gerais, como The Good Wife fez. Dá a impressão às vezes que a trama principal não anda.

      É absurdamente óbvia a metáfora da série, e é isso, inclusive, que dá nome ao texto aqui. Gosto de como BrainDead chega levantando a discussão, mesmo que isso perca um pouco do fôlego no meio do caminho. Isso é o melhor da série, aliás.

      Obrigado pelo comentário. 😉

  • Clébio Cabral

    Confesso que comecei a assistir a série pelo lado da ficção científica e “invasão extraterrestre” e senti falta de se aprofundarem nessa questão. Alguns episódios foram difíceis de assistir principalmente os que focavam mais no romance no que na trama política… Slado final é que valeu a pena assisti-la mas como vc mesmo disse não é para qualquer pessoa.

  • Fernando d.S.

    A CBS jogou a série na summer season, período em que as séries de canal aberto costumam ter vida curta.
    Uma série como BrainDead teria um tratamento bem melhor em um canal pago.

  • João Carlos

    Eu só assisti o piloto dessa serie e achei a trama interessante. Estava torcendo para vingar, gostava de alguns atores que estava na serie, uma pena que foi cancelada.

    Gostei do texto. Parabens

  • Amandinha Marinoni

    amei!

  • Carolina Favero

    Me apaixonei por braindead desde o piloto

  • Renata

    Logo que lançou eu baixei o piloto, mas deixei de lado. Por acaso, vi um comentário falando bem da série e resolvi assistir. Melhor coisa que fiz! Que série maravilhooooosa. Se tornou uma das minhas favoritas. Daquelas que vou querer assistir de novo e de novo e de novo.

    Na minha opinião, uma série pode ter tudo ruim, mas se tiver atores e atrizes competentes, funciona. E em Braindead TODOS, sem exceção, fazem um trabalho fantástico!