BoJack Horseman 3×05/06: Love And/Or Marriage/Brrap Brrap Pew Pew

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Como manter a energia depois de um episódio tão fantástico quanto o último? Da única forma possível: seguir em frente. BoJack Horseman sabe que voltar atrás e mencionar os acontecimentos de Fish Out of Water seria um erro, porque estragaria o sentimento de exclusividade que o episódio nos deu. Só nos sabemos a bela e tocante aventura pela qual BoJack passou e “esquecê-la” (ou seja, omiti-la” da narrativa daqui pra frente seria uma ótima tática para deixá-la ainda mais memorável. Ninguém verá aquele lado sensível de BoJack que nós vimos e isso é triste.

Mas o ritmo da série continua excelente! Love And/Or Marriage foi uma ótima sequência, porque falou, na sua maioria, sobre o amor, ao menos na vida dos outros personagens. Com BoJack nós voltamos às trivialidades da fama e das suas crises. E Brrap Brrap Pew Pew agarrou no arco introduzido bem no final do quinto e trouxe uma das discussões político-sociais mais complexas da série até o momento. É aquela velha história: a Netflix sabe que o binge-watching vai rolar, então eles constroem a narrativa com base nesse conhecimento. A piadinha com a Diane gritando ‘mother’ no fim do episódio e completando com um ‘fucker’ no início do próximo é uma prova gritante disso. E mesmo quando as temáticas e tramas não são particularmente similares, o roteiro consegue fazer os episódios terem sinergia porque deixa aquela impressão de que cada episódio é uma lição para os seus personagens (um pouco parecido com o que acontecia em Wilfred).

Os desastres amorosos dos personagens esculpiram o caminho para um mundo em que a mera noção de Diane ter um bebê pareceu absurda. Todd e Emily quase reatando os laços só para BoJack entrar no meio e dormir com a garota; Princess Carolyn tendo encontros horríveis e só se sentindo atraída por um camundongo; o estado turbulento do casamento de Mr. Peanutbutter e Diane (que têm uma terapeuta de casal interpretada pela Lorraine Bracco, numa óbvia homenagem à Dra. Melfi de Os Sopranos); as noivas que quase deixam os monólogos malucos de BoJack as separar… o momentum para a gravidez da aspirante a escritora funcionou muito bem dramáticamente e a discussão sobre o aborto ainda mais, porque não tem jeito de imaginar um bebê no meio disso tudo.

Com o choque da gravidez, Diane acaba acidentalmente twittando na conta de uma celebridade que vai fazer um aborto. A celebridade em questão é a estrela adolescente pop Sextina Aquafina, uma daquelas figuras que eu nem me lembrava que já tinham aparecido em BoJack Horseman, para ser muito sincero. Só fui me lembrar dela algum tempo depois de acabar o episódio. Ela se inspirou a carreira dela naquele assustador videoclipe “Prickly Muffin” da Sarah Lynn. Mas não volta a acontecer, eu não esqueço mais dela depois dessa participação. A cantora golfinho foi a peça mais engraçada que podiam ter colocado no tabuleiro e as maluquices sem freio que ela trouxe pro episódio só completou a discussão. Ela não só decide aproveitar o aborto para aumentar a sua fama (se tornando um ícone do movimento pró-escolha) como também faz um single sobre asssassinar bebês (com direito a referências ao bebê estelar de 2001: Uma Odisseia no Espaço e às guerreiras de Mad Max: Estrada da Fúria). E se isso já parece inacreditável, imaginem a minha surpresa quando ela resolve fazer o aborto fictício ao vivo e lucrar com a exibição.

Como a garotinha admiradora da Sextina disse à Diane, o humor algumas vezes é a melhor forma de se transformar um assunto desconfortável em algo mais fácil de encarar. Metalinguagem pura, já que é o maior acerto do episódio. Fazia algum tempinho que eu não via uma retratação tão legal sobre o tema na televisão. Foi uma sátira tão crua e alienígena que o episódio às vezes parecia não ter uma posição (mas, sendo um trabalho original da Netflix, nós sabemos muito bem em que lado do espectro político ele fica). Mas é curioso ver BoJack Horseman, que critica com tanta paixão a cultura do politicamente correto, assumir essa perspectiva. Demonstra bem as prioridades do pessoal por trás da série.

Confesso que assumi que a Diane fosse cancelar o  aborto e manter a gravidez. Sério mesmo. E eu não aprendo a lição! Essa temporada foi cheia de momentos assim, em que os tropes da narrativa americana são friamente quebrados… e eu continuei caindo neles! Eu disse lá no começo desse terceiro ano que BoJack não sentia a necessidade de perseguir fórmulas, mas eu mesmo pareço esquecer disso às vezes.

É o tipo de situação em que você fica feliz por estar errado.

Gags mais charmosas do episódio

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Já repararam que tem vários figurantes fazendo aparições recorrentes na série? Essas duas por exemplo (e eu concordo com o leitor que disse que essa mulher da direita se parece com a Alex Vause). Outro detalhe que acrescenta muito pra narrativa. Nós vemos essa mulher do cabelo azul tristonha lá no fundo, mas nunca descobrimos o porquê. Talvez ela seja uma personagem fascinante, mas nós nunca vamos saber.

IMAGEM 2

Passei um bom tempo rindo como um idiota com o cuidado que tiveram em alinhar o olhar da mulher ao da girafa lá no fundão. Que coisa mais boba.

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No episódio passado uma enguia elétrica precisou de um taser para imobilizar o BoJack, mas essas pererecas estão aqui usando os seus poderes animais para limpar os vidros sem a ajuda de qualquer suporte. Não é justo, nada nesse mundo faz sentido!

IMAGEM 4

A melhor gag do episódio foi a quantidade de filhotes desse rato anti-aborto ir aumentando e eles irem parecendo cada vez mais miseráveis.

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“Se ordenhe (como o habitual). Prove o leite.” 

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Esse pica-pau podia era ter aparecido mais. 

IMAGEM 7

“Não é rum e coca-cola? Não.” ou os palitos com a cabeça do Leonard Maltin nas flores? Não consigo escolher a coisa mais legal nesse quadro.

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Quando esse balão apareceu pela primeira vez eu pausei o episódio e me escondi debaixo do travesseiro para ninguém conseguir ver o tamanho do meu sorriso. 

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Sim, eu abortaria um carro. Não gosto de carros.

Outras coisas que eu adorei:

– Finalmente ilustraram bem a personalidade do Judah, o assistente da Princess Carolyn. E que personalidade! Adorei o personagem. Quem dera se a Ana fosse legal assim. Ela é uma das piores novas personagens de BoJack! Entediante pra caramba;

– “Hotel Kangaroosevelt”;

– A representação das drogas quando a Diane ficou doidona foi bem precisa;

– O retorno do A Ryan Seacrest Type me pegou de surpresa. Aliás, todos os retornos ocasionais estão parecendo bem isolados, como se essa fosse a temporada mais fechadinha;

– Pronto, agora os vines são aceitos no circuito de festivais de cinema. Que mundo terrível esse o de BoJack;

– Que bacana. O Jurj Clooners ganhou um dos prêmios e isso não surpreendeu ninguém porque já estavam publicitando pra caramba o filme. A gente meio que caiu no lobby;

– BoJack acha que ninguém se completa e que se contentar é o único passo lógico pra não ter infelicidade futura;

– Esse desgraçado desse Randy continua ferrando tudo na MSNBSea;

– A cena do doutor dizendo que a Diane tem de ver os vídeos dos filhotinhos fofinho e toda a reação do Mr. Peanutbutter foi hilária demais;

– … mas não foi mais engraçada do que a Diane, Sextina e Princess Carolyn fazendo sons de armas na limusine;

– Os “The Leonard Maltin Awards” foram um soco na cara do crítico americano e me garantiram umas boas risadas. Não que eu tenha algo contra ele. Não me interesso muito pelas críticas dele, mas ele tem um gosto afiadíssimo;

Falas que me fizeram uivar:

– “Festivais não importam, Todd. É só pra você conseguir umas folhas no seu poster.” 

– “Eu estava pensando no que você disse e…” “É, para de fazer isso. Ninguém devia pensar nas coisas que eu digo.” 

– “O Jurj é um saco, porque todo mundo gosta dele? Ele não é um deus, ele é só um velho que gosta de pegadinhas.” “Igualzinho a Deus.” 

– “Especialmente porque você tem todos aqueles advogados vindo semana que vem para trocar aquela lâmpada. OK, acabei de sacar que isso também foi uma piada.” 

– “Mas será que o conceito de mulheres terem escolhas forem longe demais? Nós formamos esse painel diverso de homens brancos em gravatas de borboleta para falar sobre o aborto.” 

– “Será que abortos são mesmo necessários? Eu ouvi uma teoria que diz que uma mulher realmente tem uma gravidez não desejada, o corpo tem uma maneira de reduzir o feto a partículas de gás e ela pode peidar o feto pra fora.”

  • Anderson Tomaz

    Sextina Aquafina dona da porra toda

  • Anderson Tomaz

    Sextina Aquafina dona da porra toda

  • Fish Out of Water e Brrap Brrap Pew Pew entraram na minha lista de melhores episódios do ano.
    Além da genialidade desse roteiro fico encantando com as sacadas em cada plot e com o enorme número de referencias. É cruel de tantas mençoes. BoJack precisa reassistir.
    “Quando esse balão apareceu pela primeira vez eu pausei o episódio e me escondi debaixo do travesseiro para ninguém conseguir ver o tamanho do meu sorriso. ” [2] kkkkkkk
    Gente escuto a música todo dia kkkkkk socorro
    E amo a versao da Diane kkkk pra pra piu piu
    Excelente review.

  • Fish Out of Water e Brrap Brrap Pew Pew entraram na minha lista de melhores episódios do ano.
    Além da genialidade desse roteiro fico encantando com as sacadas em cada plot e com o enorme número de referencias. É cruel de tantas mençoes. BoJack precisa reassistir.
    “Quando esse balão apareceu pela primeira vez eu pausei o episódio e me escondi debaixo do travesseiro para ninguém conseguir ver o tamanho do meu sorriso. ” [2] kkkkkkk
    Gente escuto a música todo dia kkkkkk socorro
    E amo a versao da Diane kkkk pra pra piu piu
    Excelente review.

  • Matheus Rocha Andrade

    “pray to God that fetus has a soul cause i want it to feel pain when I eject it from my hole.” woooooooooooooooooow!!!

    a musica além de extremamente ofensiva e hilaria, é surpreendente bem produzida e viciante, só pelos 6 epi já seria uma boa temporada comica, mais os 4 ultimos episodios extrapolaram todas as expectativas de tanta ousadia e qualidade no roteiro, esperando review anciosamente

  • Matheus Rocha Andrade

    “pray to God that fetus has a soul cause i want it to feel pain when I eject it from my hole.” woooooooooooooooooow!!!

    a musica além de extremamente ofensiva e hilaria, é surpreendente bem produzida e viciante, só pelos 6 epi já seria uma boa temporada comica, mais os 4 ultimos episodios extrapolaram todas as expectativas de tanta ousadia e qualidade no roteiro, esperando review anciosamente

  • “Mas será que o conceito de mulheres terem escolhas forem longe demais? Nós formamos esse painel diverso de homens brancos em gravatas de borboleta para falar sobre o aborto.”

    Eu ri demais nessa parte,porque é muito ridículo e real ;(
    Hahaha

  • “Mas será que o conceito de mulheres terem escolhas forem longe demais? Nós formamos esse painel diverso de homens brancos em gravatas de borboleta para falar sobre o aborto.”

    Eu ri demais nessa parte,porque é muito ridículo e real ;(
    Hahaha