BoJack Horseman 3×03: BoJack Kills

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O mundo de BoJack Horseman é um mundo de eminente decadência moral e sentimental. As probabilidades deixam de ser variáveis e se tornam certas quanto o assunto é infelicidade. Os personagens da série não parecem estar procurando uma forma de ser felizes e sim uma forma de prolongar o esforço, como se a alegria ao fim de uma longa e miserável jornada valesse mais. Isso se expressa em quase todos os personagens. Até mesmo no Goober, que fez um hilário e ao mesmo tempo melancólico retorno nesse episódio.

Essa temporada parece estar especialmente fascinada pelo passado de BoJack e a corrupção de tudo que já foi inocente nele. Goober, que era um alívio cômico que todos adoravam odiar, tornou-se um traficante psicótico e pervertido. Se lembrarmos dos problemas com drogas e sexo (inclusive com o próprio BoJack) que a pequena e adorável Sarah Lynn veio a enfrentar na sua vida adulta, dá pra notar um padrão. Pouco a pouco, BoJack Horseman esmaga cada vez mais o único legado que BoJack tem. Mesmo quando isso acontece com pessoas com quem ele não se importa (Goober), o peso sobre o que BoJack quer tanto preservar ainda é sentido. Você pode ter odiado com todas as suas forças aquele garoto que zombava de você na escola, mas ainda vai se sentir um pouquinho mal se descobrir que ele morreu.

No episódio, uma das orcas funcionárias de Goober é encontrada morta na piscina do Cuddlywhiskers. Acabamos descobrindo que o responsável é o próprio Goober e a droga que está colocando nas ruas, o que não é nenhuma surpresa e que nunca tenta ser. Aliás, a série praticamente anuncia que é ele que está por trás da morte da baleia-assassina. Isso porque ela entende que o combustível para o episódio não é o mistério e sim a dinâmica entre BoJack e Diane, que voltou aos holofotes pelo menos nesse capítulo. E como eu senti falta dela. A melhor coisa que já aconteceu aos dois personagens foi o R. Bob-Waksberg ter superado a coisa do romance. Eu não tenho a menor ideia se esse lado da relação de BoJack e Diane vai voltar, mas eu espero que isso não aconteça. Não só porque os dois nunca combinaram ou porque Diane fica muito bem com o Mr. Peanutbutter, mas porque os personagens de BoJack Horseman são todos intrigantes demais para viverem como organismos narrativos compostos. Cada um tem de ser a sua própria pessoa.

E já que toquei nisso, vou afirmar a minha preocupação oficial com essa temporada: eu sei que ainda é o início, mas os outros personagens parecem estar sendo abandonados ou limitados ao espectro humorístico da série. Mr. Peanutbutter, Todd e Princess Carolyn foram jogados pro canto nesse episódio. Houve toda uma trama do Mr. Peanutbutter ter contaminado a casa com cheiro de gambá e uma brincadeira com eles estarem drogados que, por favor não me compreendam mal, eu achei divertidíssimo, mas creio que comprimiu os personagens em caricaturas com que eu não me identifico. Eu gosto de BoJack Horseman quando a série pega o espírito que esteve abundante na trama de BoJack, Diane e a orca morta: aquela coisa extremamente ousada e inventiva, mas que te faz sentir uma emoção tão completa no final do episódio que te lembra que você está vendo um drama animado.

Cuddlywhiskers traduziu com perfeição o que BoJack Horseman tem nos ilustrado ao longo desses anos. “Demora um bom tempo pra você perceber o quanto é infeliz e ainda mais tempo pra perceber que não tem de ser assim. (…) Só depois de desistir de tudo você consegue encontrar uma maneira de ser feliz.”  Um momento de escrita brilhante, sem dúvidas. Eu não me vejo nesse ideal anarcoprimitivista que tem se tornado o sonho molhado dos adolescentes politizados à base de Clube da Luta. Eu me sinto tão atraído por Mr. Robot quanto qualquer um, mas pela narrativa. Toda a baboseira sobre liberdade e todo o “blá-blá-blá, dinheiro é ruim, políticos e ricos são ruins, blá-blá-blá, anarquia, blá-blá-blá” têm na minha cabeça o mesmo significado que o discurso de uma criança com o nariz sujo.

Isso faz de BoJack Horseman uma experiência ainda mais especial pra mim, por ter me feito refletir tanto sobre algo dito sobre um hamster antropomórfico quando um dos dramas mais ovacionados do momento me deixou envergonhado ao dizer (várias vezes, todas sem qualquer eficácia) a mesma coisa. BoJack Horseman não parece o tipo de produção que inclui palavras assim pra parecer inteligente. Eu acho que elas surgem porque no fim do dia, por mais que nós acreditemos e sejamos alimentados com razões pra acreditar nisso, BoJack Horseman não é sobre um cavalo em depressão e sim sobre um cavalo aprendendo a aceitar que não precisa estar em depressão.

As palavras de Cuddlywhiskers claramente tiveram efeito em BoJack e Diane. Eles poderiam passar a apreciar a vida a partir daquele momento, porque eles acreditam no que ouviram. Mas eles não vão passar. Não agora… mas eventualmente. Eu realmente acredito que no fim da série nós teremos um BoJack… feliz. Ou pelo menos espero. Já temos coisas deprimentes o suficiente no mundo real.

P.S: na próxima review eu falo do episódio que desbancou Say Anything e é agora o melhor episódio da série.

Gags mais charmosas do episódio

Não vou fingir que ninguém viu essa cobra abocanhando o bolo, mas também não vou fingir que foi de muito bom gosto.

“BoJack Horseman, estrela do filme A CORES…” e a aula de como não ser entediante na sala dos quebra-cabeças me mataram. Além do “deixe os seus dentes no quarto!”.

BoJack Horseman continua chutando o politicamente correto nos dentes. A escolinha promove a tolerância a todos os tipos de alergias e uma experiência de aprendizado sem glúten.

Outras coisas que adorei:

– A celebração não-denominacional foi curtíssima, mas me roubou vários risos.

– Já está na hora da Emily Van Camp aparecer na série, hein?

– Ninguém consegue ser mais ácido que a Diane quando ela está realmente tentando. Amo as falas ainda mais quando lembro que é a minha amada Annie dizendo elas. (Quem mais está empolgadíssimo pro filme de Community?)

– O retorno do Meow Meow Fuzzyface foi tímido, sim, mas também foi uma baita duma participação legal.

– Alguém entendeu a tatuagem do Todd? “Skin Heads”? Eu não saquei essa. 

Falas que me fizeram uivar: 

“Diane, jovens hoje em dia não ligam, eles se comunicam através de uma combinação de mensagens de texto, rolares de olhos e fotos de pintos.”

“E depois eu fumei um baseado, então pode ser por isso que cheira a gambá aqui.”

“A Academia não perdoa assassinatos fácil. Com estupros eles não parecem se preocupar.”

– “Um sistema é um método formulado ou plano de procedimento.”

  • Murilo

    Só esperando a review do episódio 4 que é o melhor da série até aqui =D

  • Murilo

    Só esperando a review do episódio 4 que é o melhor da série até aqui =D

  • Ani

    Acho que a tatuagem “skin heads” é do tempo que ele ficou na prisão, não?

  • Ani

    Acho que a tatuagem “skin heads” é do tempo que ele ficou na prisão, não?

  • Pedro Albuquerque

    O gato policial é muito engraçado.

  • Pedro Albuquerque

    O gato policial é muito engraçado.

  • Livia Provasi

    Quando Todd esteve preso, ele estava dividido entre as gangues dos latinos e dos skinheads, lembra?
    Num braço ele tem a tattoo dos skinheads, no outro, dos latinos.

    No “baile” na prisão, quando ele ia pra uma gangue, abaixava uma manga do uniforme, pra aparecer uma tattoo. Quando ia pra outra gangue, abaixava a outra manga.
    Daí, como são tatuagens, ele as tem até hoje hahaha