Black Mirror 3×02: Playtest

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“Playtest” prova que a tecnologia é a ferramenta perfeita para a fuga. É tão presente que às vezes sequer pensamos que estamos inclinados à fuga ou que a fuga é necessária, mas assim fazemos. A tecnologia talvez tenha nascido para facilitar as coisas, deixar a vida menos complicada, mas seu uso não é somente para isso agora — é que nós não sabemos lidar com a realidade de atribuir apenas uma função a algo, e nossos smartphones são provas concretas disso. Sendo assim, ela não poderia deixar de prestar suporte na nossa luta contra o medo. Se descuidamos, entretanto, e sempre descuidamos, é bem capaz de o efeito ser contrário e acabarmos cara a cara com aquilo que nos amedronta. É como não saber escolher um filme, tarde noite, quando tudo o que se quer é escapar da solidão, e perceber que nossa escolha foi uma película que dialoga justamente com isso e aponta nossa situação (os exemplos são diversos).

Em Playtest, Black Mirror dialoga com medo e tecnologia — e a ligação entre ambos. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.
Em Playtest, Black Mirror dialoga com medo e tecnologia — e a ligação entre ambos. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.

Edgar Allan Poe, que aparece por aqui, sabia conversar com desenvoltura sobre o medo em suas obras. Ele falava sobre nossos medos em seus contos — nossos medos de agora são versões atualizadas dos medos de outrora —, por mais que não tenha convivido com nossa tecnologia. Nesse segundo episódio, o autor norte-americano aparece acompanhado de seu famoso corvo, e não é por acaso. Além de ter sua trama bem próxima do horror, e o gênero dever muito à Literatura Gótica, para a qual Poe contribuiu, o corvo representa um dos maiores medos vividos pela personagem principal, mas compartilhado com muitos de nós: o medo de ter que conviver com aquilo que queremos esquecer.

“As pessoas às vezes falam mais quando estão assustadas. Isso as ajuda a compensar o medo. É similar a quando você deixa a tevê ligada de madrugada. As vozes o ajudam a se sentir menos sozinho. Mesmo que, na verdade, você esteja sozinho.”

Katie em Playtest, Black Mirror.

Playtest, palavra que se auto-explica no idioma original, é o nome usado para o processo de testar um novo jogo. Como Black Mirror sabe expor e debochar de nossa arrogância, o jogo aqui não é comum. Trata-se, é claro, de um jogo que vai mais além e nos propõe uma experiência de realidade virtual que nenhum outro poderia — em um estilo Matrix ou Inception, e as referências são diretas e indiretas, provando desde o começo que o roteiro sabe brincar com a própria falta de originalidade.

Playtest se utiliza de medos mais genéricos como bullying para dialogar com o público. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.
Playtest se utiliza de medos mais genéricos como bullying para dialogar com o público. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.

Antes do jogo, entretanto, é preciso conhecer nosso jogador. Cooper (interpretado pelo ator Wyatt Russell) é um americano que decide viajar para não enfrentar a convivência com a mãe, após uma tragédia ter acontecido com ambos. Como o episódio é escrito pelo criador, Charlie Brooker, o texto sabe nos manipular desde o começo e da melhor maneira possível. Somos apresentados a Cooper como um bom moço, que cuidou do pai quando doente e que só quer viajar para colecionar memórias. A apresentação é feita sem pressa, e a série aproveita os catorze primeiros minutos para nos deixar confortáveis com ele. Além disso, o rapaz não é dotado de nenhuma afetação ou esquisitice, contribuindo para que não só sintamos empatia por ele, como nos percebamos em sua pele — mesmo os medos deles são bem genéricos, o que nos ajuda para que soframos juntos.

Sonja (interpretada pela atriz britânica Hannah John-Kamen) faz uma boa participação e é a desculpa perfeita para conhecer mais sobre Cooper. A química entre os atores funciona, e os diálogos não parecem forçados, nem mesmo o momento em que ele se abre e se explica sobre como fora parar em Londres. Ela, ainda, é essencial para nos conduzir ao ato final, quando tudo começa a desandar.

Em cena: os atores Wyatt Russell, Cooper, e Hannah John-Kamen, Sonja.
Em cena: os atores Wyatt Russell, Cooper, e Hannah John-Kamen, Sonja.

O episódio brinca com nosso senso de perigo e demora para engatar seu clímax, preparando o terreno através de cenas que estabelecem o cenário, a lógica da situação e a personalidade do protagonista. O uso das cores é bem trabalhado, e sentimos que há sempre tons claros na rotina de Cooper, tanto em suas roupas quanto nos ambientes que visita. A ausência de cor tem seu auge na sala branca, justamente onde a personagem experimenta o jogo pela primeira vez, e não creio que isso seja por acaso. Quando chega à casa do século dezenove, entretanto, as cores vibrantes invadem a tela e isso diz muito sobre o texto de Playtest e o que ele se propõe. As distrações da nossa vida nos privam de conviver com nossos medos, muitas vezes, então, somente isolados da possibilidade de recorrermos aos nossos celulares em nossas rotinas sem cores é que podemos deixar que a realidade se situe.

Playtest utiliza de diversos efeitos visuais para ambientar sua história. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.
Playtest utiliza de diversos efeitos visuais para ambientar sua história. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.

Com as regras bem estabelecidas, o roteiro começa a brincar com suas possibilidades, principalmente com a noção de toque e do irreal — mesmo quando ameaça se jogar em furos para fazer uma reviravolta, percebemos que está tudo bem planejado e o próprio episódio debocha de nossos questionamentos enquanto telespectadores. Os quinze últimos minutos, quando o nível de tensão aumenta e as coisas passam a acontecer em ritmo mais rápido, abusam de maquiagem e efeitos visuais bem feitos.

Somos provocados, mas não posso afirmar que tudo funciona. Além de ter muitos finais, não creio que a revelação da doença do pai de Cooper tenha favorecido o roteiro, pois nós ficamos esperando que isso seja utilizado, e, quando acontece, não tem o efeito que uma surpresa teria proporcionado. Vale destacar, por outro lado, a boa participação de Wunmi Mosaku e sua Katie, que não só explica boa parte do procedimento, como esclarece por que a série está falando sobre isso.

“ […] No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,

e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.

Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,

não há de erguer-se, ai!, nunca mais!”

O Corvo, Edgar Allan Poe, na tradução de Milton Amado.

Cooper com uma coletânea de contos de Edgar Allan Poe em mãos, lendo o poema “The Raven” (O Corvo).
Cooper com uma coletânea de contos de Edgar Allan Poe em mãos, lendo o poema “The Raven” (O Corvo).

> Quem o Negan vai matar em The Walking Dead

Depois de tanta reviravolta e de tocar em assuntos tão delicados, Playtest tem um desfecho já esperado por nós. O corvo do poema condenou seu companheiro à lembrança, enquanto nosso herói aqui é condenado ao esquecimento. O destino de Cooper é aquele que se tem (nós sabemos) quando se decide olhar dentro de si mesmo e encarar os próprios medos Não dá para conviver com isso, sair ileso dessa autoacusação. Sim, sabemos disso. E é por essa razão que não podemos pensar muito a respeito. Deixamos esse ótimo episódio terminar e corremos para os amigos, para os celulares, para o próximo… É preciso se distrair!

  • Leonardo

    Impressionante como sempre após assistir um episódio de Black Mirror eu fico um tempão meio chocado com o que vi. Chocado ao perceber que, eliminando-se as licenças poéticas, a realidade que a gente vive é exatamente a que a série mostra. E o pior, nem percebemos isso, pois já nos acostumamos a achar normal passar mais de 8 horas por dia olhando para um celular, buscando games e afins para fugir dos problemas e criando realidades alternativas com a tecnologia para evitar enfrentar nossos medos na vida real.

    Black Mirror é assustadoramente real, e é isso o que tanto me atrai nela.

    • Estou aguardando o episódio onde um personagem passa várias horas assistindo seriados/no computador. Nesse dia, eu ficarei muito tenso.

  • Adriana Santos

    A última frase não poderia descrever melhor a minha reação quando o episódio acabou: fui escutar Lady Gaga, brincar com os cachorros e ver desenho. Precisava me distrair na hora hahaha

  • Ze

    Pesado..

  • Pergunta: usar um óculos de realidade virtual é uma coisa, agora, implantar algo com acesso ao cérebro, e em versão de teste, não é muito arriscado? Se Cooper fosse um gamer, ok tem doido pra tudo, mas não vejo muitos gamers mochilando pelo mundo, pelo contrário, eles devem estar jogando enquanto escrevo.

    Como Cooper não é um gamer, entendo que o episódio quis mesmo foi passar o terror. E nada mais triste e chocante do que o final de Cooper e como os responsáveis lidaram com isso. Esse foi mais daqueles toques clássicos/sinistros de Black Mirror.

    • Gabriella Borges

      Ele precisava de grana porque TINHA que voltar pros EUA na próxima semana. Quem dá a dica que é uma gamer com interesses por trás. Fica a dúvida se era por um furo de reportagem ou mandar o Cooper pra boca do lobo.

      • Não sei pq, mas acabei esquecendo que Cooper aceitou o job só pela grana mesmo. Mas mesmo assim, eu na situação dele pegaria outro job que não evolvesse meu cérebro.

  • Forte.

  • Letícia Menezes

    Esse foi o episódio que menos gostei, assim como o primeiro, achei a história manjada, era óbvio o que ia acontecer e aquela cena em que ele volta para casa eu já tinha idéia que não ia ser real e me lembrou de sonhos em que você anda, anda, anda para chegar um lugar e então você acorda e tem que andar tudo de novo. Esse recurso foi usado muitas vezes mundo afora, não foi inovador, como esperado de Black Mirror. Ele morrer e ser descartado tão facilmente, essa insensibilidade, também não é nenhuma novidade do mundo fictício. Triste ele não falar com a mãe antes de morrer, mas isso sim é algo esperado de Black Mirror!
    Confesso que levei um susto com a aranha mutante na curva da sala, e a Katie não ser real também me supreendeu, mas a forma como ele lidou com o que ela disse foi, na minha opinião, estúpida, se fosse eu (não teria aceitado nada em primeiro lugar) eu saíria correndo dali.

  • César

    Adorei a referência a Bioshock quando a Katie vai tentar entrar no quarto onde o Cooper está trancado e fala: “would you kindly?” Kkkkkkkkk

    Não é um dos melhores episódios, mas tem uns conceitos interessantes, principalmente no decorrer que fica brincando com nossas expectativas e a do Cooper sobre o que vai acontecer.

    O ator me lembra muito o Owen Wilson, até pela quantidade de vezes que ele solta um WAOW no episódio. Kkkkkkkkk

    • Igor

      Bioshock <3

    • Lara Magchep

      Eu não notei na hora, só percebi que a netflix tinha botado a legenda errada então eu comentei com meu namorado ‘é por gentileza e não cuidadosamente’ e ai ela solta a frase de estar tão ferrado para obedecer sem questionar. Ai eu surtei na hora: OBEY OBEY OBEY!
      Minha franquia favorita haha!

  • Marcelo

    Episódio inferior ao primeiro mas muito bom, impressionante como essa temporada está melhor que as anteriores.

  • João Paulo

    Gostei muito do episódio.
    Ele é muito feliz em fazer você se simpatizar pelo Cooper no começo, e quando vamos nos adentrando nos seus medos, o nível de tensão vai às alturas que culmina com aquele excelente final.

    Enfim, não consigo ver uma grande “lição de moral” nesse episódio, mas gostei muito do personagem, do ritmo que o episódio alcançou e das suas reviravoltas.

    • Jax Teller

      Acho que a “lição de moral” do episódio é “enfrente / não fuja dos seus medos”

      • João Paulo

        Pode ser, Jackie Boy.

  • Antony

    Black Mirror lacrando um episodio melhor que o outro , fazendo maratona de domingão grande acerto da Netflix em voltar com essa delicia !

  • Danilo Nascimento

    Testes em animais… Como seria se fosse em humanos? BM: Playtest

  • Fraco, cliche e monótono, tal como o episódio anterior.

    • Paulo Frank

      tb to achando esse inicio de temporada sob a produção da Netflix MUITO fraco!

  • Paulo Frank

    Gente, ninguem se incomodou com a interpretação desse ator ou com o personagem? Nao sei se o meu problema foi com o personagem em si q era insuportável ou se foi o ator q entregou uma interpretação exagerada e canastrona do personagem.
    Simplesmente fiquei torcendo pra ele morrer logo e calar a boca. Sinceramente, ao meu ver, esse cara estragou o episodio.

  • Pedro Duzzi

    Achei esse episódio melhor que o primeiro é pode ser perturbador pra quem já teve uma bad trip huahuaha
    Interessante foi que até o cogumelo ser implantado na nuca do rapaz, o episódio ate que estava se passando “dentro da realidade”

  • R

    Ainda abaixo das outras temporadas mas infinitamente melhor que o primeiro, a única observação que coloco é que esse episódio foi bem próximo da realidade.

  • João Carlos

    Por mais que o episodio tenha sido bem construido, atuações boas e uma historia interessante, sem falar nas reviravoltas, eu achei ok o episodio em si.
    A ideai do jogo é sensacional, imagina se em um futuro isso fosse possive.

    PS: Odeio aranhas

  • Tiago Brugnera

    Prezados, tenho uma teoria
    A katie menciona que não se trata de VR, mas de um experimento de “camadas de realidades”. A interferência da ligação da mãe, no exato momento, provocado pelo destino dele não ter atendido antes – mesmo que avisado diversas vezes – não provocou um deslocamento e o fez presenciar camadas diferentes de realidade, com tempos diferentes de realização (tal como A Origem)?

    Como ele poderia ter acertado a completa fisionomia e voz do japonês, dono da empresa, se naquele momento inicial antes do jogo das toupeiras ele sequer havia o encontrado?

    • Clark Jornalista

      Pelo simples fato de que o roteiro quer que nós, espectadores, saibamos de quem se trata. De que é o criador dos jogos em ambas as cenas. Podemos muito bem pensar que Cooper o imaginou mais alto ou baixo do que é, ou com voz mais fina ou grossa, mais calmo ou nervoso. Até porque toda a ideia que ele tinha do criador dos jogos foi de uma capa de revista.

  • Pedro Paulo Pinheiro

    Selo black mirro de qualidade, mas esse episódio eu fiquei esperando algo a mais. O medo dele com a mãe foi sendo trabalhado durante o episódio e não impactou no final, deu pra aceitar a experiência reproduzir toque e dor física e achei ótimo ele ter perdido a comunicação que também é um grande medo o de ficar sozinho, contudo esse inception de sair do jogo mas ainda estar no jogo faria sentido se o intuito fosse só fazê-lo esquecer a simulação ao invés de coincidir com a ligação da mãe que na verdade já tinha sido feita no início do teste (ficou confusa essa parte). Esse final do teste durando 0,04s e o pedido pra anotar que ele chamou pela mãe finalizou sem fechar as pontas do roteiro.

  • Thiago Elias

    quem ja teve uma bad trip sabe exatamente como o cooper se sentiu… nao usem lsd amigos uhsush

  • Não gostei desse episodio, o primeiro foi bem melhor.

  • Zé Higídio

    Sei lá, acho que o episódio se perdeu na mensagem que queria passar… o episódio inteiro trata de medos associados à tecnologia, e o final parece passar uma lição de moral totalmente diferente, sobre… Medidas de segurança dos aparelhos tecnológicos… O episódio foi OK, mas ainda muito confuso e sequer conseguiu passar a sensação de medo, só um pouco de agonia com a sequência final de desgraças do personagem.