Ben-Hur

Perdão nos tempos do videogame

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Na “Era de Ouro de Hollywood”, antes do boom dos multiplex e do advento da violência gráfica, os filmes carregavam uma aura de imediato reconhecimento com o público. Famílias inteiras lotavam as salas, absorvendo narrativas que até hoje são idolatradas. “Ben-Hur” talvez seja um dos expoentes canônicos dessa época, garantindo a façanha de ser o primeiro filme a conseguir 11 Oscars (feito igualado somente 38 anos depois com “Titanic”) e catapultar Charlton Heston como um ícone imortal. Com a chegada da internet, do formato episódico das séries e da velocidade estonteante das informações, assistir um filme de 4h (com intervalos e interlúdios) é quase uma punição tão cruel quanto a crucificação.  “Ben-Hur” (2016) surge então como uma nova roupagem para a já clássica história.

A história de Judah Ben-Hur (Jack Huston) é recontada como um grande jogo épico com uma progressão definida, cada ato do filme equivalente a um desafio a se vencer até chegar no “boss” final e assim zerar o game. O escopo geral continua o mesmo: a traição de Messala Severus (Toby Kebell), os anos de escravidão nas galés, o encontro oportuno com Ilderim (Morgan Freeman) e o retorno triunfal nas corridas de biga de Poncius Pilatos (Pilou Asbæk) em busca da vingança. O que muda é a forma em que isso tudo é contado. Timur Bekmambetov utiliza sua habitual verve no cinema de ação para agilizar a narrativa, condensando quatro horas em duas. O russo se utiliza de uma gama de artifícios para modernizar o clássico:  câmera na mão, ponto de vista em primeira pessoa em cenas chave, os efeitos grandiosos, trilha sonora épica…

O conjunto que aparentemente seria a receita completa para o flop acaba como uma obra interessante. Entretanto, não podemos chamar a versão de 2016 de remake, visto que ele é uma nova adaptação do livro de Lew Wallace e não uma refilmagem do clássico de 1959. As comparações, contudo, são inevitáveis. Não arranha nem de longe a carapaça do clássico de Willian Wyler, mas se encaixa perfeitamente na visão hiperbólica dos jovens atuais, mesmo se utilizando do batido clichê mocinho versus bandido (ou você acha que as cores das bigas e cavalos é aleatória?).

Os cenários criados na Cinecittà e nos arredores de Roma dão o clima necessário ao filme, que se utiliza bastante de efeitos práticos em sua concepção, apelando para o CGI somente quando a grandiosidade é necessária, como na sequência das galés. O visual lembra bastante a estética de “Ryse: Son of Rome”, o que aproxima ainda mais da estrutura de game na qual o filme se embala. As corridas de biga, que ocupam um papel quase central na trama, são de encher os olhos, se desenrolando perante o espectador com todo o caos que se tem direito. O grande ponto negativo está no elenco. Huston entrega uma atuação coesa, mas que não consegue transmitir o mesmo carisma de Heston. Kebell soa artificial, principalmente quando é preciso uma dose maior de drama. Rodrigo Santoro surge como um Jesus “ativista”, lutando contra a opressão romana com ensinamentos de paz e amor. E Freeman em uma repetição mascarada de papeis anteriores.

Nada mais normal que a versão da geração “Pokémon Go” do conto de redenção através do perdão seja retratada de maneira rápida. No entanto, o mais interessante de tudo, é o sutil subtexto (quase um tapa de pelica) sobre o imperialismo que o filme contém. O exército romano age como se Jerusalém fosse sua Abu Ghraib, criando um paralelo imediato com a arrogância que os EUA têm nas suas ocupações. As atitudes cruéis e o subjugo dos mais fracos é como se fosse um espelho da política externa americana. Os romanos (assim como os americanos) acreditam que o mundo é de sua responsabilidade (e posse), salvando aquilo que as vezes não precisa ser salvo afinal. Quem diria que embutido em toda essa carapaça moderna de blockbuster, estivesse uma crítica ferrenha ao militarismo. Uma ironia, já que Wallace era um soldado da Guerra Civil Americana. Nos tempos do videogame, o perdão pode não ser perfeito, mas acaba saindo mais inteligente e mordaz que a encomenda.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Paramount Pictures Brasil 

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  • edujakel

    eu lembro do filme original e tava com medo desse ser uma versao bem piorada…mas pelo visto será bom. estou ansioso.
    Parabens SM por sempre estar à frente das coisas…
    Tio Michel nao ta fraco nao.

  • edujakel

    eu lembro do filme original e tava com medo desse ser uma versao bem piorada…mas pelo visto será bom. estou ansioso.
    Parabens SM por sempre estar à frente das coisas…
    Tio Michel nao ta fraco nao.

  • Paulo HDC

    Com todo o respeito, discordo da afirmação de que “assistir a um filme de 4h (com
    intervalos e interlúdios) é quase uma punição tão cruel quanto a
    crucificação.”. Acho que assistir a um filme série, peça teatral ou qualquer outra obra RUIM seja um martírio. mesmo que tenha curta duração. Mas se o filme for bom (O Ben-Hur clássico é ótimo) a gente nem nota. Há alguns anos, filmes como E o Vento Levou, Lawrence da Arábia, Ben-Hur e outros clássicos imortais foram restaurados e relançados em cinemas de arte para que as novas gerações os conhecesse. Tive o prazer de assisti-los em um cinema da minha cidade. Foi uma experiência maravilhosa. A sala cheia. O intervalo para socializar. As trilhas sonoras grandiosas. Aqueles filmes que foram feitos realmente para o cinema (que não era tido como um simples etapa para se chegar ao DVD). Aquelas cenas e atores icônicos. Resultado: Sala cheia não apenas de cinéfilos, mas também de curiosos que saíam extasiados.
    Se uma obra de arte consistente tem problemas para ser apreciada por uma geração, suspeito que o problema, de fato, não esteja nessa obra.

  • Paulo HDC

    Com todo o respeito, discordo da afirmação de que “assistir a um filme de 4h (com
    intervalos e interlúdios) é quase uma punição tão cruel quanto a
    crucificação.”. Acho que assistir a um filme série, peça teatral ou qualquer outra obra RUIM seja um martírio. mesmo que tenha curta duração. Mas se o filme for bom (O Ben-Hur clássico é ótimo) a gente nem nota. Há alguns anos, filmes como E o Vento Levou, Lawrence da Arábia, Ben-Hur e outros clássicos imortais foram restaurados e relançados em cinemas de arte para que as novas gerações os conhecesse. Tive o prazer de assisti-los em um cinema da minha cidade. Foi uma experiência maravilhosa. A sala cheia. O intervalo para socializar. As trilhas sonoras grandiosas. Aqueles filmes que foram feitos realmente para o cinema (que não era tido como um simples etapa para se chegar ao DVD). Aquelas cenas e atores icônicos. Resultado: Sala cheia não apenas de cinéfilos, mas também de curiosos que saíam extasiados.
    Se uma obra de arte consistente tem problemas para ser apreciada por uma geração, suspeito que o problema, de fato, não esteja nessa obra.

    • Lucas Fernandes

      Tudo que você citou está no texto, só que de outra maneira. O problema realmente está na geração, não nos filmes. Isso é uma crítica clara, mas que não se aplica a todos, há exemplos e exemplos.

    • Caio Vinicius Viana Lima

      Concordo em gênero, número e grau!!!
      #arrasou

    • Alípio

      Concordo contigo.
      É essa pressa da geração atual que atrapalha a experiência em muitos filmes. A necessidade de tudo mastigado, chefes de fase e cenas de ação a cada tantos minutos, demonstra que essa é, de fato, uma geração problemática.

  • Luis Fernando

    Existe um Ben-Hur vencedor de 11 Oscar e com o Charlton Heston como o protagonista e os bostas nao mudam nem o nome desse novo filme. Sera esquecido com o tempo e apenas o grande clássico da década de 50 será lembrado com o tempo, podem anotar.