Atlanta 1×06/07: Value/B.A.N.

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Nos sete primeiros episódios da temporada, é possível afirmar que Atlanta foge de uma linearidade narrativa comum em séries de televisão. O que aconteceu no episódio passado não seguirá necessariamente acontecendo no próximo, ou se desenvolverá, ou até mesmo terá grande importância em um arco mais amplo. Atlanta não vê problemas em contar histórias distintas, espécie de curtas-metragens com pouca conexão, suas histórias não são literalmente continuadas através das semanas. O que une cada episódio são os personagens que fazem parte da jornada.

É por isso que em Value, Atlanta nos apresenta Vanessa pela primeira vez em profundidade. Em um restaurante com sua amiga de longa data, aparentemente, Van é recebida pelo choque de realidade de relacionamentos longos e espaçados. Ao longo da vida, vamos sendo separados de amizades por diversos fatores, e tentar retomar uma amizade distante pode ser algo complicado.

É isso que Value mostra em seu primeiro ato. É possível sentir o julgamento das duas amigas separadas por carreiras diferentes, destinos diferentes. Van é uma professora e tem uma filha, a amiga Jayde viaja o mundo acompanhando esportistas. É interessante ver como mundos diferentes reagem ao se encontrarem. Toda a cena que se passa no restaurante é desconfortável: os diálogos, as expressões corporais e as ações (como tirar a foto da comida depois de uma discussão leve).

Em seu segundo ato, Atlanta coloca Vanessa em uma situação que aparentemente não faz parte do cotidiano da personagem, depois de uma noite em que consumiu maconha. Ao acordar e ser lembrada pelo celular que seu local de trabalho realizaria um teste de drogas, a personagem se vê em um conflito. A maneira como Atlanta nos apresenta Vanessa, deixa a entender que ela é a parte responsável e madura da história. É por isso que uma relação guiada pela emoção e pelo impulso não funciona na vida de Van (como é com Jayde).

Em uma cena que traz humor escatológico, vemos Van utilizando a urina da filha, filtrada de fraldas, para passar no teste de drogas, transportando a urina em uma camisinha que estoura em sua boca. É importante manter o emprego na escola por causa de Earn. Nesse momento vemos a entrega da personagem na relação peculiar com o protagonista de Atlanta. Van parece acreditar que Earn pode crescer, mas ainda é cedo e alguém precisa segurar as pontas. Ainda assim, a personagem decide assumir suas ações e acaba demitida. O que torna todos os acontecimentos mais interessantes, é que não temos certeza da linearidade de Atlanta e esse pequeno curta pode nem impactar alguma decisão futura. No fundo, a série se resume em vários pequenos atos que abordam a vida de personagens negros em Atlanta. Pode ser que no fim sejamos apresentados a uma costura narrativa, mas aqueles que buscam uma resolução sólida de arcos e histórias pode se decepcionar com o rumo vago que Atlanta vem tomando. Eu, por outro lado, acho esse tipo de televisão algo inovador, interessante e animador.

1×07: B.A.N

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Atlanta

Com o aroma inovador que Atlanta trouxe para a televisão, Em B.A.N, temos o exemplo claro do formato livre e experimental que Glover tenta buscar em sua obra prima. Atlanta é uma comédia? Um drama? Acho que limitar uma produção audiovisual em um momento em que existe tanta variedade de formatos e modelos não é a melhor maneira de abordar sua importância, principalmente em um episódio em que o formato foge muito do que vimos anteriormente.

B.A.N. (Black American Television) nos mostra Paper Boi em Montague, que busca ser semelhante a pequenos shows da televisão local americana, em um debate sobre a comunidade transgênera e “transracial”, com direito a uma matéria “emocionante” sobre um jovem negro que afirma ser um homem branco de 35 anos. Todo o episódio é executado como se estivéssemos assistindo ao canal B.A.N, com comerciais diversos que mostram o consumismo americano de forma exagerada e cômica, mas o episódio centra-se principalmente na discussão em Montague, que recebe Paper Boi como participante, ao lado de uma doutora (percebe-se a diferença no painel: um rapper negro e uma mulher branca com grau elevado de estudo). O que Atlanta tenta transmitir em suas duas histórias apresentadas no programa é a cultura do politicamente correto que tanto se fala hoje em dia. Para muitos, pronomes, termos e formas de se abordar determinados assuntos são importantes para manter a sociedade civilizada, mas muitos julgam isso “chato” e desnecessário.

O que Paper Boi reflete é que muito se fala por determinadas minorias sociais, e que o mesmo nunca foi defendido por nenhum grupo ou celebridade. Paper Boi precisou aprender a se virar sozinho e isso parece frustrar o personagem e o desviar de uma conduta julgada “politicamente correta”, não por má vontade, mas por simplesmente existir coisas mais importantes para se lidar (como não ser morto pela polícia).

Toda a discussão no programa é complicada e até mesmo Glover parece disposto a afirmar não entender todos os pontos de assuntos tão delicados. A confusão no painel é uma representação da sociedade americana em tempos de tensão racial, de gênero e identidade. Existe confronto, discordâncias, sensacionalismo, dor, graça e acima de tudo, espaço para reflexão distribuída entre personagens com backgrounds diferentes que são colocados em contato para discutir a configuração da sociedade moderna americana.

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Atlanta

Outras observações:

Em Value uma criança com o rosto pintado de branco encara Vanessa no encerramento do episódio. Não entendi.

O homem que ofereceu um sanduíche para Earn no ônibus no episódio piloto, Ahmad White, retorna em uma propaganda de televisão bizarra para os que buscam encontrar respostas. Inclusive o telefone apresentado no episódio é real e reproduz uma chamada de voz.

  • pmartins

    A criança com cara pintada é um weirdo genérico, um “problema” que nesse caso as professoras tinham que lidar regularmente. Pode ser “traduzido” como qualquer coisa, tanto abordagens de malucos no meio da rua (meu caso) como pessoas passando nutela dentro do onibus ( caso do earn).

    tl dr; aleatoriedades que aparentemente só acontecem “conosco”

  • Izaias teodoro

    Esse episódio 7 foi simplesmente genial.

  • JhowXXmambaout

    Eu desconfio que seja uma analogia com os casos de black face que aconteceram em algumas universidades do estados unidos. Tem um filme que fala sobre isso: Dear White People / Cara gente branca -> http://www.imdb.com/title/tt2235108/

    No caso é um negro fazendo um “blank face”

    “Blackface é o nome dado para a caracterização de personagens do teatro com estereótipos racistas atribuídos aos negros. Na tradução literal do inglês, blackface significa “rosto negro”, em português.”