American Gothic 1×03: Nighthawks

Um roteiro esforçado

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Quando terminei de assistir ao piloto de American Gothic, a sensação maior que fiquei é de um roteiro esforçado. Esta classificação está longe de definir qualquer série como boa, mas lhe redime de eventuais erros durante sua narrativa. Todas as séries desejam contar uma história, por mais que algumas se inclinem tanto para nos revelar o contrário. Há, entretanto, certa diferença entre aquelas que fazem um bom trabalho e aquelas que não fazem sequer o esforço necessário para nos entreter, sobrevivendo de nosso masoquismo intelectual. A produção aqui comentada estava no meio, depois de uma entrega morna e uma sequência no mesmo tom. A terceira semana, entretanto, desestrutura o enredo e cria alguns problemas para quem se mantinha equilibrada de forma tão desajeitada. Dessa vez, a sensação é de que seu potencial (mesmo que tenha se estabelecido dentro de uma história incoerente, para dizer o mínimo) foi deixado de lado, em nome de fórmulas inadaptáveis ao estilo que vinha sendo desenvolvido no par de episódios anteriores.

A investigação dos assassinatos é ilógica. O modo como é conduzida varia entre não fazer sentido, depender de coincidências inacreditáveis ou recursos previsíveis e cenas ruins. Brady, responsável pela condução do caso, poderia ter sido usado de maneira que sua participação no enredo trouxesse aspectos interessantes diante da proposta da série. Afinal, a intenção é dialogar com o público sobre como lidamos com os segredos de pessoas próximas, principalmente familiares. Não é explorado, entretanto, o relacionamento da personagem dele com os cunhados, suas convicções, seus princípios ou sua ambição. Ele poderia ter sido retratado como alguém que passaria por cima de tudo para ter sucesso em sua vida profissional, mesmo que tivesse que abrir mão da família, ou alguém com conceitos éticos nebulosos, capaz de comprometer a própria investigação para proteger a esposa rica e seus parentes. O problema, além da escolha do ator (o que se arrasta para quase todo o elenco) é que a personagem não se compromete com modelo algum, variando entre um e outro, mais por incapacidade dos roteiristas do que uma tentativa de criar uma personagem com conflitos.

Outra questão que se agravou consideravelmente: Jack. Não me entendam errado, gosto desse tipo de personagem, o único problema é que ele não se encaixa na série. Suas cenas parecem desajustados projetos de colagem, inseridas para objetivos que desconhecemos — e espero que realmente tenham algum. A impressão é que estamos assistindo a recortes de algum remake sobre A Profecia, o que, além de desgastado, é exagerado e caricato demais, principalmente dentro de histórias de mistério. A construção do suspense (seja em séries de tevê ou em filmes) precisa vir da força do texto e do trabalho caprichado dos atores, em resumo, e não de cenas repetitivas que tentam comprovar a dificuldade de convivência social de uma criança. Há outros modos de fazer isso. Eu me lembro de assistir a entrevistas com a criadora da série e sua empolgação em falar da personagem do garoto. O que percebi, desde então, foi a falta de pesquisa, de profundidade e de um trabalho de criação minucioso, que não deixasse essa subtrama cair nesse misto de bobo e irreal, exatamente como está.

Madeline, a matriarca que elogiei semana passada, se perdeu entre um episódio e outro e aqui aparece desesperada, desajeitada e perdida. Como uma pessoa que é capaz de matar o marido para guardar um segredo terrível, detalhista e curiosa o bastante para sumir com provas essenciais, como a caixa com os sinos, deixa passar uma foto que fica escancarada às vistas de todos na recepção do funeral do marido? E quando a notícia saiu, e o cinto foi repetido nos telejornais diversas vezes, como ela não se lembrou automaticamente do objeto e do que poderia comprometer sua família? Suas decisões durante o episódio, tão empenhada em parecer uma força impenetrável de arrogância, são ocas e insensatas. Novamente, imagino que o ideal seria assistir à saga dela tentando proteger os entes queridos (ou a si mesma), mas só se afundando no processo. Sua relação com o detetive também poderia ser melhor explorada aqui.

Todas as cenas de Cam nesse episódio requerem uma condescendência que eu simplesmente não posso conceder aos roteiristas, afinal, há pessoas sendo pagas para escrever isso. Não é falta de capacidade, visto que a showrunner trabalhou com The Good Wife em seus melhores anos, mas preguiça mesmo. A condução da trama envolvendo o rapaz nos leva aonde a série queria chegar: seu conhecimento sobre certo corpo durante sua adolescência. O texto poderia ter utilizado outros trajetos, que não envolvessem invadir um escritório à noite que, além de não ter supervisão e ter todas as salas destrancadas, ainda tem um computador sem senha alguma — de uma profissional que trabalha diretamente com informações bem particulares e sigilosas. Toda a sequência foi bem vergonhosa e só desperdiçou o uso de Soph, que eu elogiei semana passada.

Tessa e Garrett sofrem dos mesmos problemas: as personagens não tem carisma algum e os atores não estão bem dirigidos. Ambos são condicionados a cenas estranhas com diálogos estranhos e que não firmam seu propósito de maneira coesa ao restante das tramas. Enquanto ela é chata e pronto, e estou pouquíssimo preocupado com o futuro de seu casamento, ele é misterioso a seu modo, mas de um mistério nada atrativo, nada original e suas cenas com sua mãe são de um amadorismo que não deveria existir na tevê — mesmo na tevê aberta.

Para não dizer que só aponto os pontos negativos, gosto de Alison, tanto da atriz quanto da personagem. O que senti falta em episódios anteriores foi o relacionamento com o seu marido sendo explorado, mas isto esteve presente aqui. Infelizmente não foi da maneira que eu esperava. Carreira versus família está sempre implícito em séries com o tema política, então passeamos por isso aqui sem que nada pareça substancial o bastante para chamar nossa atenção — depois de The Good Wife, House of Cards e outros nomes consagrados, é difícil usar alguns argumentos sem que eles pareçam fracos. O caso da candidata com Naomi também parece raso e estranho. Entendo a problemática de sua sexualidade, mas fico esperando que haja algo a mais. Ela tem um caso com sua asseessora? Ela é lésbica e não pode revelar isso a ninguém? É isso? Pretty Little Liars já fez isso, e foi bem mais charmoso. Espero que a pretensão não seja colocar duas mulheres se beijando e acreditar que isso, de alguma forma, é chocante.

Tenho fé de que American Gothic teve apenas uma semana ruim e Nighthawks foi escrito em dia de correria e histerismo na sala de criação. Tudo parece rascunho demais. A série ainda tem dez episódios para fechar sua história, então o voto é para que não consiga a conhecida façanha de desgastá-la antes de sequer alcançar a metade. Sigamos.

  • NowSilva

    Sei lá, gostei da série. Acho que até aqui todos os familiares são estranhos ao ponto de serem assassinos. Das séries que utilizam essa temática, AG está sendo a que mais revela personagens interessantes. Nem tava nos meus planos assistir, mas com a escassez do momento, até que dá pra passar o tempo.

  • NowSilva

    Sei lá, gostei da série. Acho que até aqui todos os familiares são estranhos ao ponto de serem assassinos. Das séries que utilizam essa temática, AG está sendo a que mais revela personagens interessantes. Nem tava nos meus planos assistir, mas com a escassez do momento, até que dá pra passar o tempo.