A Evolução Homossexual na TV Americana, parte 1

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Quando assistimos um seriado, minissérie ou filme para televisão, por mais óbvio que possa parecer, sempre é bom relembrar, que não devemos esquecer o país ou público principal para o qual um desses três tipos de narrativa foi criado. Estamos lidando com o fator cultura, e talvez o que possa parecer sem sentido em um país, em outro, uma cena qualquer, poderá ter muita significação, ainda mais quando estritamente situamos as principais séries antigas ou novas com um dos seus principais produtores, os Estados Unidos.

Esta série textual, A Evolução Homossexual na Televisão Americana, se dividirá em três partes que denominarei como o passado, o presente, e o futuro. Mesmo o foco aqui sendo estritamente sobre o que é produzido para a TV ou algum veículo de exibição com atuação semelhante, o Netflix por exemplo, quando preciso, farei uso de uma outra narrativa midiática para melhor expor este recorte histórico.

Desde o primeiro filme gay a mostrar um relacionamento homoafetivo de forma simpática na TV, até os dias atuais, já se passaram 44 anos, bastante tempo. E mesmo assim, homens gays continuam tendo pouca representatividade dentro dos seriados na atualidade. E podemos fazer esta pergunta: Se o movimento LGBT alcançou tantas conquistas nesses últimos anos, por que o aparecimento de homens homossexuais com papéis (ou quase) regulares em séries americanas (ou não) parece ter regredido? A cada década nova não seria interessante criar uma série que conseguisse se comunicar com este público de forma eficaz ou provocativa?

Com as mulheres, a situação é um pouco diferente, a construção de uma identidade sexual lésbica é mais representada. Sua variante comportamental é bem melhor construída em cena do que a masculina nos últimos anos, que apesar de toda uma crítica de gênero, ela acaba denotando um ar de liberdade, de fazer a mulher conhecer o seu próprio corpo, de receber carinho numa proporção maior do que seria capaz de encontrar num homem, quando não, percebido erroneamente como uma paixão quase ingênua por quem assiste, ou servindo de approach fetichista para homens héteros (ou bi).

Recentemente, numa popular série de um site de streaming, um homem hipermasculino, de massa corporal farta e barbudo, declarou gostar de homens, aqui. Estamos falando de Orange Is The New Black/Netflix, com o Piscatella, personagem vivido por Brad William Henke. Uma grande vitória não só para uma cultura ursina americana desde a década de 70 passada, mas também, para todos os demais homens homossexuais do planeta.

E antes que alguém tente usar outros meios midiáticos/artísticos (música, artes plásticas, artes cênicas ou literatura) como parâmetro de comparação, novamente é bom lembrar, que estamos tratando de um produto televisivo ou que se assemelhe a sua veiculação, com isso logicamente querendo indicar: ALCANCE MASSIVO A TODO OS TIPOS DE PESSOAS. Daí a importância de um texto como este, e o agora citado da review de OINTB. E nem se trata de uma agenda gay de dominação global. Não. A comunidade LGBT faz parte da comunidade humana, e a televisão também sendo um processo humano como qualquer outro, pode e deve ser um meio inteligente de mostrar que homens e mulheres não deixam de ser o que são por se envolverem com pessoas do sexo igual ou oposto com todos os seus modos de ser homem e mulher na sociedade.

E verdade seja dita, não podemos cegamente acreditar que a televisão ande proporcionalmente em paralelo com as conquistas em Políticas de Gênero que acontecem no mundo real, ela ainda por um bom tempo será colada a uma palavrinha de mercado: DEMANDA. E não basta somente ter um público querendo algo específico, também envolve dinheiro, audiência, fatores culturais como abertura ao novo que pode ser freado por valores religiosos, morais e comportamentais em um conjunto de pessoas que poderão ou não ter objetivos e interesses comuns.

Se alguns conteúdos analisados geraram mais saldos negativos do que positivos no decorrer dos anos, que o querido leitor do Série Maníacos, sinta-se à vontade para comentar algo no fim desta postagem, aqui, não será tarefa minha elevar ou diminuir qualquer conteúdo abordado, quando for para fazer um comentário mais específico, será no espaço de comentários.

Por fim, sabemos bem que a televisão ou uma variante que se assemelhe a sua exibição, “TV” em site de streaming (Netflix, Hulu, etc), são importantes meios de massificação de pensamentos. E que também, uma determinada ideia exibida nela, poderá ter um outro valor na sociedade, e, nem faço coro com quem acredita que a televisão é o maior meio de “idiotização e desestruturação” do meio que vivemos. Ela é o maior veículo midiático conservador (já referido parágrafo acima), no entanto, nunca fugindo de alfinetar a sociedade quando preciso fazer.  E conhecer as primeiras vezes de isso ou aquilo na TV e uma Representatividade LGBT, será nossa aventura a partir de agora:

O PASSADO

REPRESENTATIVIDADE GAY

1971 – É na série All in the Family (1971-1979, CBS) episódio 5, de nome Judging Books By Covers, que temos o primeiro papel gay não estereotipado da televisão americana, e felizmente, com uma trama totalmente positiva. O arco de histórias gira em torno do Steve (Philip Carey) ex-jogador de futebol americano (1ª imagem, foto 1).

1972 – A primeira série a ter um personagem gay recorrente é The Corner Bar (1972-1973, ABC), com o ator Vincent Schiavelli com o personagem Peter Panamá, (1ª imagem, foto 2). Nesta data, o mesmo canal, exibe That Certain Summer, o primeiro filme na televisão americana a tratar a homossexualidade de forma honesta. A história gira em torno de Doug (Hal Holbrook), um homem divorciado e apaixonado pelo seu parceiro Gary McClain (Martin Sheenn) (1ª imagem, foto 3). Do seu casamento com uma mulher, ele tem um filho adolescente chamado Nick (Scott Jacoby). Numa marcante cena de confronto entre pai e filho, Doug diz:

Muita gente – a maioria das pessoas, eu acho – pensam que é errado. Dizem que é uma doença. Dizem que é algo que tem que ser curado. Eu não sei. Eu sei que não é fácil. Se eu tivesse que escolher, não é o que escolheria para mim. Mas é o único modo que eu posso viver. Gary eu tenho um tipo de casamento. Nós… amamos um ao outro

– Doug Salter

1975 – A série Hot l Baltimore (1975, ABC), foi o primeiro seriado a contar com um casal gay (George e Gordon) na rede de TV americana, porém, os papeis sexuais ali representados, eram tipificados de forma a um “ser a mulher e o outro homem” (2ª imagem, foto 1). No mesmo canal, em Barney Miller (1975-1982, ABC), uma sitcom situada na delegacia de Nova York, mostra o primeiro arco de histórias envolvendo homossexuais na TV em sua sexta e sétima temporada. Um dos homossexuais, Marty Morrison, era um gay afetado. No segundo episódio da série aparece preso acusado de assalto, não muda nos seguintes, e sempre recebido ou aparecendo na delegacia com seu parceiro Darryl Driscoll (2ª imagem, foto 2).

É digno mencionar, que a série teve um oficial de polícia gay, Zatelli  (2ª imagem, foto 3), e também, muito criticada por retratar um casal gay de forma bem estereotipado, incidente este, que levou o produtor executivo a pedir consultoria ao Task Force Gay Media (grupo que monitorava a representação LGBT nos meios de comunicação) para melhorar a imagem homossexual em cena.

NUDEZ MASCULINA

1973 – Exibir nu masculino até hoje é um tabu na televisão. O dono desta primeira façanha foi Gary Burghoff na série M*A*S*H (1972-1983, CBS). Não foi parte frontal, foi traseira numa cena quando ele está sendo atacado, deixando a toalha cair. A cena é encontrada no episódio 10, The Sniper, da 2ª temporada.

1989 – A primeira vez que o pênis aparece, e por 1 segundo, é na minissérie Lonesome Dove (CBS) com um cowboy nos créditos de abertura.

PRESERVATIVO

1986 – Casos de infidelidade não era mais novidade na televisão, mas lhe faltava coragem para discutir o uso de preservativo. A primeira série a fazer isso foi Cagney & Lacey (1982 – 1988, CBS) no episódio 8, Rites of Passage da 6ª temporada, com Mary Beth Lacey ao ver que o seu filho estava indo para o primeiro encontro, abre uma gaveta, e lhe entrega uma camisinha.

PALAVRÃO

1967 –  É nesta data que temos o aparecimento da palavra “INFERNO”. Foi visto em Star Trek: The City on the Edge of Forever (episódio 28, 1ª temporada, NBC), e, Dragnet: The Kidnapping (episódio 3, 1ª temporada, NBC).

1974 – Na novela Love of Life (1951-1980, CBS), se ouve “bastardo” pela primeira vez num horário diurno.

1979 – O segundo mais famoso palavrão, “filho da puta”, foi falado na TV pela primeira vez por Hawkeye Pierce (Alan Alda) em M*A*S*H, episódio 172 da 8ª temporada.

1981 – O primeiro palavrão mais famoso, “fuck”, apareceu no Saturday Night Live (1975 – presente, NBC) com Charles Rocket.

1999 –  O americano tem uma lista de sete palavras “sujas” que jamais poderiam ser ditas na televisão. Shit é uma, ou no bom português: MERDA. A honra de proferir é para a série Chicago Hope (1994-2000, CBS) com o episódio 4 da 6ª temporada (Se você conhece a zoeira feita pelo desenho South Park, e pelo Hermes e Renato, você sabe que merda acontece, risos).

INFERTILIDADE

1963 – É nos Flinstones (1960-1966, ABC), terceiro episódio da 4ª temporada, que aparece o primeiro grande arco a lidar com a temática. Após o nascimento de Pebbless (Pedrita), Barney e Betty ficam “deprimidos” com a situação por não poderem ter filhos.

ABORTO

1964 – Na novela Another World (1964-1999, NBC), é exibido na televisão a primeira história sobre o aborto, e com assassinato do parceiro.

1972 – Em Maude (1972-1978, CBS), a personagem Maude Findlay, 47 anos, teve um aborto em novembro, dois meses antes do Roe v. Wade e a discussão da legalização do aborto nos Estados Unidos.

ESTUPRO

1974 – A protagonista desta cena foi Linda Blair no filme Born Innocent da NBC em um dos filmes de maior audiência no período. A ironia do filme, é que ela não foi violentada por um homem ou grupo de homens, mas por uma líder de uma gangue juvenil só de mulheres com um cabo de madeira.

ROUPA ÍNTIMA

1987 – É aqui que entra uma das maiores controvérsias da televisão americana, que já vinha discutindo em suas séries assuntos como a liberdade sexual, porém, mostrar uma mulher de sutiã num comercial num horário nobre, ainda era um tabu, aqui temos o vídeo moderado, e aqui o sem censura (comparem com o comercial brasileiro da Valisère aqui, também do mesmo ano, muito melhor o nosso).

REPRESENTATIVIDADE NEGRA

1965 – Foi na série I Spy (1965-1968, NBC) que tivemos o primeiro ator negro (Bill Cosby) em papel principal na televisão americana.

1968 – O primeiro beijo inter-racial acontece em Star Trek: Plato’s Stepchildren (episódio 10 da 3ª temporada) com o Capitão Kirk (William Shatner) e a tenente Uhura (Nichelle Nichols).

COMPARTILHAMENTO DA MESMA CAMA

1947 – O primeiro casal a se deitar na mesma cama na TV, foi Mary Kay and Johnny (4ª imagem, foto 1). uma breve comédia de 15-25 minutos que passou por três grupos, Dumont (1947-1948), CBS (1949) NBC (1949-1950). Algo semelhante aconteceu em The Munsters (1964-1966, CBS) com Herman e Lily em 1964 (4ª imagem, foto 2), mas não vale, não são especificamente humanos, nem para Wilma e Fred em Os Flinstones (1960-1966, ABC), é desenho (4ª imagem, foto 5).

Isso só veio acontecer novamente com Samanta e Darrim de Bewitched/A Feiticeira (1964-1972, ABC) em 1964 (4ª imagem, foto 4). E se popularizou com Mike e Carol, em 1969, da série The Brady Bunch (1969-1974, ABC), um escândalo para época (4ª imagem, foto 3). Nem o casal mais conhecido das comédias, Lucy e Ricky de I Love Lucy (1951-1957, CBS), apareceram juntos, dormiam em camas de solteiro (4ª imagem, foto 6).

A televisão tem muito a dizer sobre nós, até a segunda parte galera.

  • Priscilla Arradi Martins

    amei esse texto, parabéns

  • Priscilla Arradi Martins

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  • gabriel nunes

    Já quero a parte 2

  • gabriel nunes

    Já quero a parte 2

  • Junior PB

    Adorei, quero você pra mim Fabio, parabéns, amei esse texto, já quero a parte 2

  • Junior PB

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  • Marcos Ferrari

    Que resgate histórico incrível. Muito bom não só para quem gosta de seriados como nós leitores do Séries Maniacos, mas para todo mundo.

    Tá excelente o material. Ansioso pelo restante. E quero aqui parabenizar o SM e a você Michel por prorcionar isso para nós. Isso só vem mostrar o quanto o site tá crescendo, se diversificando em conteúdos, novas reviews, e marcando o seu lugar, que é de direito sempre, o melhor site sobre seriados do Brasil. Parabéns a todos.

  • Marcos Ferrari

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  • Taígo

    Muito Bom !!

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  • Marcelo

    Ótima matéria!

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  • Jackson Douglas

    Que matéria maravilhosa!

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  • roger de melo

    Que artigo,parece que estou lendo um livro.Ansioso pelas proximas partes

  • roger de melo

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