3% antes da Netflix, relembrando o piloto original

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Criada por Pedro Aguilera, 3% é uma websérie brasileira de ficção científica lançada em 2011. Incentivado pelo Ministério da Cultura e pela esperança de ver uma obra brasileira ganhar espaço nesse mundo predominado pelos americanos e europeus, o piloto da série foi dividido em 3 partes, nos mostrando um pouco do potencial.

Parte 1:

Assim como as distopias famosas nas telas de cinema, 3% começa sua apresentação sem qualquer preocupação com uma introdução calma e detalhada. Com uma narração breve da aparente personagem principal, Bruna, conseguimos juntar algumas informações e ter uma ideia superficial do que está acontecendo.

Em um mundo futurístico, a população se encontra separada em dois lados, o lado bom (selo Eu Sou Ricaa!) e o lado ruim (selo Pobreza Pega). Àqueles que se encontram do lado de lá, o poder de gozar do melhor e de ter uma vida digna; àqueles do lado de cá, a benção de ter a oportunidade de tentar mudar de lado aos 20 anos. Benção. Sim, benção, pois o que fica claro nessa primeira parte do piloto é a ideia de que mesmo existindo a aprovação de apenas 3% dos candidatos, a mera chance de disputar pela vaga já é suficiente para fazer cada jovem de vinte anos pular de cabeça e esquecer de sua vida, ou sobrevida que possuía.

Em uma sequência rápida de ordens e gritos, a atmosfera do processo seletivo nos remete a diversas situações calamitosas. A obrigatoriedade em saudar um superior que claramente não se importa com quem está sobrevivendo ou morrendo lembra diretamente épocas em que o patriotismo e a opressão eram base. Ademais, a ideia de avaliar pessoas e só ajuda-las se preencherem o check list, pode ser facilmente relacionada a políticas externas praticadas por alguns países, como os refugiados.

Além disso, a série toca em outro ponto muito discutido na sociedade e importante na política pública, a meritocracia. O pensamento utilizado pela avaliadora ao entrevistar Fernando reflete o que se passa na cabeça de vários brasileiros durante diversas situações cotidianas. “Não sou preconceituoso, portanto irei tratá-lo da mesma forma que trato todos os outros”. Discurso vazio e ilusório. Uma coisa é igualdade, outra é fazer oração pra santo, contar terço, matar umas galinhas e dançar em volta pedindo para o cadeirante ter a capacidade de se locomover igual àquele que não tem qualquer deficiência. Para se aplicar o mérito, primeiro é necessário que as duas pessoas tenham começado no mesmo patamar e tenham possuído as mesmas oportunidades. No momento em que uma delas precisou e continua precisando se esforçar quatro vezes mais do que a outra para conseguir o mesmo resultado, não existe meritocracia, mas uma falsa imagem de que os dois estão em pé de igualdade. Se nem mesmo Professor Xavier consegue ficar em pé de igualdade em uma corrida com Magneto, como cobrar isso de Fernando?

Dessa forma, o início do processo seletivo parece quase uma “seleção natural”, onde o simples fato de assinar no local inapropriado, por exemplo, já se mostra um indicativo de que esse ser não é evoluído o suficiente para continuar (claramente Bruna não fez Enem e não manja dos paranauê). Com uma apresentação rápida, mas perspicaz dos personagens, nossa curiosidade é atiçada e surge a vontade de descobrir mais sobre a mentira de Tiago/Rafael e, as motivações dos outros. Por fim, a primeira parte finaliza com um cliffhanger interessante ao acabar, aparentemente, com qualquer chance da personagem principal continuar no processo, o que é no mínimo diferente do usual e poderá ser um recurso inteligente, mostrando que ninguém está a salvo e não caindo na previsibilidade.

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Parte 2:

Sem dar tempo de recuperarmos o fôlego e superarmos a lerdeza de Bruna, ela é retirada do processo e pronto. Mas o que aconteceu com Bruna? Assim como a dor de cabeça, tomou doril, Bruna sumiu. O foco muda para os outros três candidatos que ganharam destaque, Tiago/Rafael, Michele e Fernando. Com um jogo de perguntas e respostas rápido e, muitas vezes mirabolante, fica claro que os entrevistadores não procuram por respostas bonitas ou por um modelo específico.

A técnica utilizada para desestabilizar os candidatos, usando suas próprias palavras contra eles mesmos, permite fazermos uma análise do falso moralismo presente nos discursos cotidianos da sociedade. A escolha entre fama e altruísmo pode não acontecer diariamente, mas pelo menos 1 vez na vida de alguém, ela provavelmente aparecerá. Enquanto se encontra no plano teórico, de prontidão todos respondem preferirem fazer o bem ao próximo, mesmo que outros ganhem reconhecimento ainda que não tenham feito nada; entretanto, quando colocada em máxima, aquele “mas”, aquela hesitação aparece, e quem pode afirmar que, no momento, não seria hipócrita, mentiria para si mesmo, criaria uma justificativa “plausível” e faria exatamente o contrário do que havia respondido antes? Façam um teste básico que tem no filme “A Caixa” e vejam se o diabinho no seu ombro não tenta te convencer: Caso chegasse a sua casa uma caixa com o seguinte aviso, “Aperte esse botão e uma pessoa qualquer do mundo morrerá, porém você receberá 1 milhão.”, o que você faria?

Em uma situação onde o lema poderia ser igual de Hunger Games, matar ou morrer, é difícil julgar Rafael por mentir sua idade e eliminar outros três desconhecidos que podem estar em uma conjuntura igual ou pior que a dele. Da mesma maneira que é possível alegar injustiça, pois ele já teve sua oportunidade, em um processo em que apenas 3% passam, é complicado entrarmos no crivo da justiça.

Além desse jogo feito pelos entrevistadores para analisar se os candidatos conseguem se adaptar e reformular o que disseram; utilizar palavras para desvalorizar a vida dos que não passaram do muro e remexer o passado dos familiares, funciona mais uma vez para acabar com esse ímpeto de todo ser humano de justificar suas ações com mentiras belas e emocionantes. O que esse processo de seleção clama é pela verdade. Os entrevistadores querem aquele “3% vagabundo”, que não se importa mais em fingir para os outros que estão preocupados com alguém além de si mesmo, afinal são poucas vagas, e se você está tão preocupado assim com os outros, talvez seja melhor ajudá-los se eliminando. Uma vez que o verdadeiro motivo sai da boca dessas pessoas e qualquer resquício de máscara social e moral cai, o instinto de sobrevivência aparece e a seleção natural começa a fazer seu trabalho.

A segunda parte do episódio acaba com uma promessa de que não terão mais risadas, ajudas para trocar de roupa ou valores morais impedindo que todos deem o seu máximo e joguem sujo para conseguir o que querem. Let the games begin! May the odds be ever in your favor!

Para quem não é Sasha: Que os jogos comecem! Que a sorte esteja sempre ao seu favor!

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Parte 3:

3% desde o primeiro momento utilizou de situações simples para tirar conclusões importantes e grandes, e a 2ª fase do processo não poderia ser diferente. Citando a própria Michele, à primeira vista, parece até uma brincadeira de criança o que está sendo cobrado. Quem nunca se sujou todo brincando com cola, papel e tesoura?

A atividade apresentada aos candidatos demandava trabalho em equipe, rapidez, lógica, comunicação e diversas outras características essenciais para uma sociedade harmônica e funcional. Possuir a capacidade de observar quais são os pontos fortes e fracos de cada um e, assim, dividir as tarefas visando uma maior eficiência em uma menor quantidade de tempo é fundamental e o objetivo principal de sociedades capitalistas. A simples brincadeira de criar cubos remete à época do fordismo, em que existia uma linha de produção e havia a necessidade de sempre aumentar a quantidade e qualidade do produto em uma grandeza inversamente proporcional ao tempo. Entretanto, diferente de Charles Chaplin em “Tempos Modernos”, os criadores desse processo não querem uma máquina, eles também querem aquela criatividade e poder de inovação de uma criança.

Com esse pensamento vimos duas abordagens diferentes. Se há uma correta e uma errada? Se há uma melhor ou pior? Essas perguntas não são mais cabíveis nessa parte da história, visto que assim como o colar arrancado de Michele, o passado e os valores morais ficaram para trás. Todavia, é interessante observar que Rafael durante todas as fases do processo utilizou de técnicas ilegais para passar, sem se importar com quem sairia machucado no meio do caminho ou com os riscos que estava tomando, porém, após a morte de Bruna, acredito que um conflito interno surgirá em sua cabeça e cada vez será mais difícil burlar o sistema. Como grande parte dos bad boys que viram mocinhos, acho que morrerá na praia.

Por outro lado, temos Fernando, cuja deficiência o faz à vista dos outros, ser subestimado. Se em um momento ele parecia ser o causador do problema do trio, no final foi apenas devido seu pensamento rápido que eles conseguiram passar. Fernando representa o underdog, aquele personagem que parece ter passado embaixo da escada, quebrado espelho e visto gato preto, tendo todas as chances do universo contra ele, porém, sempre pronto para reerguer e não sair sem ter lutado. É um personagem com uma história bonita e de superação e, que se bem trabalhado, pode ter problemas para lutar contra valores morais e questões problemáticas do passado, como foi visto na relação com seu pai. Já tem minha torcida, porque tenho carteirinha Geek desde pequeno e assiduidade 100% nesse 7×1 que é a vida, não é mesmo?

Por fim, temos Michele. Além do fato de ser claramente proativa e ter espírito de liderança, seu jeito bobo e brincalhão mesmo dentro de um processo cruel, não permitiu que conhecêssemos quase nada sobre ela. Entretanto, o mero gesto de ter superado Luís e ter arrancado aquele colar, mostra que ela é muito mais forte do que aparenta e deixa transparecer. Espero que daqui para frente ela use seu jeito de menina para manipular e enganar cada um que passar na sua frente, deixando claro que não precisa da ajuda de ninguém e que sabe se virar sozinha. Já desejo ver Michele a la “Meninas Malvadas” usando todo seu jingle bell rock e chutando todos para debaixo do ônibus.

3% acaba seu piloto com um saldo mega positivo e um potencial grande que me faz gritar por “quero mais, quero mais!”. Matar a personagem que aparentava ser a principal e utilizá-la como narradora foi uma jogada muito inteligente, criando uma imprevisibilidade e deixando claro que essa brincadeira de criança só tem a aparência de tal. A pergunta final é curiosa e faz com que muitas outras surjam, me fazendo por um momento duvidar até mesmo que Bruna está morta, afinal, qual o objetivo de matá-la se nem mesmo como lição de insubordinação ela foi utilizada? E, além disso, qual dos 3 passará pelo processo? Qual a melhor técnica a se usar?

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Essas perguntas e muitas outras serão respondidas dia 25 de novembro, quando nossa santidade maior, vulgo Netflix, liberará os novos episódios, incluindo o primeiro episódio que foi todo refilmado. Pela chamada feita por eles, parece que algumas mudanças foram feitas, porém até lá convido todos a teorizarem e discutirem sobre esse piloto incrível.

Para saber tudo sobre a estreia da série na Netflix, dê uma olhada aqui.

  • Carol Geaquinto

    Aeeeee ótima review, tá linda e realmente foi uma análise muito bem feita do piloto ou pré-piloto. Ansiosa pra ver como vai ser na netflix e a continuação dessa história maravilhosa. Muito orgulho da primeira série brasileira da Netflix e mais ainda desse reviewer que tá cada vez melhor e sempre serei fã de carteirinha. Ameeei, parabéns Fe <3 #PoP

    • Fernando Coletinha

      Muuito obrigado. Devo muito a você! Espero continuar te orgulhando e te vendo por aqui, é uma prazer ter você comentando e discutindo comigo.

  • Vitor RC

    Vou acompanhar com certeza

  • Messinho’

    Mas eu tinha pensado que essa nova série não vai utilizar das mesmas personagens, só do ambiente criado

    • Kaio Santos

      Os nomes das personagens são os mesmo, e suas personalidades também. Oque aconteceu é que são outros atores interpretando os mesmos personagens do piloto.

    • Fernando Coletinha

      Eles farão algumas mudanças, mas Michele, Fernando e Rafael já foram confirmados e estarão na Netflix também.

  • Eu acho que essa serie ja tinha perdido o timming quando lançou a webserie… tu parecia muito repetitivo pra mim antes e agora que varias distopias teen ja bombaram nesse meio tempo, continuo achando que não vai trazer nada de novo…. vou acompanhar, espero estar errado pq assim é ponto positivo pras produções nacionais.

    • vinland

      Depois do Lixo que foi Supermax, tenho esperança com a Netflix, porque a Globo so faz cagada, e a HBO destruiu o Negocio, mas tem Magnifica 70, que por enquanto esta Decente

      • Gabriel C.

        O que fizeram com O Negócio na terceira temporada foi lamentável mesmo.

        • vinland

          Sim, foi bizarro essa 3 temporada.

    • Matheus

      A minha esperança com 3% é pq não é produzido pela Globo, o que já é ótimo, e também a Netflix têm no seu histórico ótimas séries com temas conhecidos que não se tornam repetitivos…

  • Reader

    Ótimo texto, me fez até ter vontade de ver o piloto e a série. O tema parece batido, mas Netflix não brinca em serviço. Minha animação com essa série fica tipo: bota casaca, tira casaca, bota casaca…

    • Fernando Coletinha

      É complicado. A ideia nasceu em 2011, mas como nesses 5 anos diversas distopias surgiram, o tema parece ser batido. Entretanto, os dilemas morais são bem interessantes e Netflix é Netflix, não é? Acredito que a série terá um resultado bom.

  • Caio Vinicius Viana Lima

    Mais uma série nacional pra acompanhar aqui no SM, amo muito tudo isso!!!