3% 1×4: Portão

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Se após assistir o piloto de 3% muitas pessoas ficaram com a impressão de que as atuações não foram convincentes, que a história repetia fórmulas já batidas e que estávamos diante de mais do mesmo, a impressão foi desfeita com a entrega de Portão, um bom episódio, que suscita muitas discussões e abre um imenso lastre para profundas reflexões sobre a vida, o status quo, a meritocracia e a desigualdade.

Para a primeira série brasileira produzida pela Netflix tudo até aqui está dentro do esperado. As eventuais falhas no que se refere a atuação, ao figurino, ao roteiro, a ambientação ou na construção de cena, podem e/ou poderiam ser encontradas em qualquer outra série estreante pelo mundo a fora. O irônico de tudo isso é que corremos (quase todos) para assistir essa série brasileira como se fôssemos técnicos amadores de futebol, prontos para criticar – no sentido pejorativo da palavra -, prontos para encontrar falhas e supostos erros e, ávidos por acompanhar a repercussão dessa estreia junto ao público internacional. Quem nunca assistiu uma série só para criticar que atire a primeira pedra. Quem nunca, né? Afinal, adoramos criticar séries e filmes! Mas o fato é que 3% nos surpreende não pela sua qualidade técnica ou pelo seu roteiro e sim pela promessa futura de uma continuação mais consistente e mais elaborada.

3% - Portão
3% – Portão

Por falar em filme, quando assisti Maze Runner: Correr ou Morrer, da franquia baseada no best-seller de James Dashner e acompanhei os embates de Thomas e da sua turma junto a misteriosa organização conhecida como C.R.U.E.L, o que mais se destacava para mim era a necessidade que aqueles jovens, de um mundo caótico, tinham de escapar, de sobreviver e de serem promovidos para um lugar melhor do que o lugar que se encontravam naquele momento.

O episódio Portão me remete ao mesmo tipo de experiência emocional que tive ao assistir o filme Maze Runner: Correr ou Morrer, a promessa do devir ou da promoção para um lugar melhor do que o lugar que se encontra no momento direciona a pessoa para situações extremas e atípicas. É fato que o experimento social proposto nesse episódio mexe muito com os nossos instintos mais primitivos e temos na manutenção da nossa sobrevivência a melhor justificativa para cometermos todo tipo de torpeza inimaginável.

3% - Portão
3% – Portão

Em um episódio onde os holofotes foram projetados sobre Marco e em um experimento social de sobrevivência, 3% apresentou o seu melhor episódio até aqui. Com uma prova mais consistente e com inúmeras possibilidades de desdobramentos dos plots secundários, a série abriu um grande leque para o roteiro, que até então não parecia tão afiado e preciso. Gostei bastante da prova numérica com alavancas. Mostrou de forma dinâmica a função e a alternância de cada elemento dento de um trabalho coletivo, mas sempre há um fator agravante quando se trata de provas envolvendo confinamento coletivo e escolha de liderança (BBB feelings). Marco é a prova cabal de que a máxima de Montesquieu continua bastante contemporânea: “Todo homem investido de poder é tentado a abusar dele”. O rapaz se gabava o tempo todo de ser um Alvares descendente; a elite e um predestinado a feitos grandiosos. Eu tive ímpetos de, literalmente, entrar na TV e dar uns petelecos no rapaz por conta da sua boçalidade e da sua falta de escrúpulos. Até torci para que Rafael tomasse alguma medida mais drástica, porém, no meio do caminho tinha um portão, tinha um portão no meio do caminho…E assim, acabou a história do pequeno déspota esmagado por um portão.

E o que falar da Joana? Só amor por essa garota! A única a criar uma alternativa silenciosa e não violenta para sair do confinamento extremo. A garota ainda ganhou de quebra uma conversinha com o Big Boss Ezequiel e uma espiadinha no Big Tablet. O retorno dela ao grupo foi bem emblemático, colocou um pouco de ordem em todo aquele caos e possibilitou que os sobreviventes migrassem para o próximo nível do Processo, o Jardim.

Creio que a maior contribuição desse episódio fica por conta da reflexão sobre nossas ações em situações extremas, tal qual o livro de William Golding, O Senhor das Moscas, que retrata a regressão à selvageria de um grupo de crianças inglesas de um colégio interno, presos em uma ilha deserta sem a supervisão de adultos, após a queda do avião que as transportava para longe da guerra, o episódio 4 da série 3% nos remete a esse tipo de experimento extremo, onde há grande simbolismo e qualquer um dos personagens pode representar diferentes papéis na micro sociedade: o cruel, o fascista, o manipulador, o altruísta, o pacificador, o indiferente….Dessa forma, 3% entregou um bom episódio, corrigiu parcialmente algumas falhas gritantes, teve um bom twist no final e nos proporcionou uma porção de novos questionamentos que até  transcendem o mundo da ficção:

3% - Portão
3% – Portão

> Entrevista com o elenco de 3%!

PORTÃO 01: Joana não é Joana. Rafael não é Rafael que na verdade é Tiago. Quem mais nesse Processo não é quem diz ser? Precisando checar direitinho esses registros Ezequiel!

 PORTÃO 02: Se eu estivesse no lugar do Marcos, de que forma eu reagiria ao confinamento?

PORTÃO 03: Será que mais algum candidato faz parte da Causa também?

PORTÃO 04: O que é o Jardim e quais provas acontecerão lá?

Estou curtindo bastante essa série. Que venha o próximo episódio!

  • Junior Brito

    Por conta desse excelentíssimo texto, farei o esforço pra acompanhar a série, que por conta do borburilho tinha me deixado desmotivado. Parabéns Verinha! Mais uma vez arrasando. 😘

    • Vera Tocantins

      Recomendo que você veja a série, Brito. Não só por se tratar de uma série brasileira, mas por conta dos debates engatilhados pela trama apresentada.

      Brigadão pelo “excelentíssimo texto”, mas se ele já lhe serviu de recurso incentivador, já cumpriu a sua missão.

  • Sthefani Cordeiro

    Vera, review maravilhosa. Pra mim, esse é o melhor episódio da série até agora. A série me remeteu a ideia de como os líderes surgem… Nos momentos de grande dificuldade, o que queremos é respostas e às vezes não nos preocupamos em como elas virão. Vide Hitler, Stalin, Trump, Marco… Mas no interior dessas decisões equivocadas que tomamos, podem surgir de forma silenciosa líderes que realmente fazem a diferença, Gandhi, Martin Luther King, Joana…

    • Vera Tocantins

      Perfeitas as suas colocações sobre a origem dos chamados líderes mundiais. Esse episódio mexeu muito com as nossas próprias convicções sobre como agiríamos se estivéssemos no poder, no local de mando em uma situação extrema. Não temos uma resposta precisa para essa pergunta e isso nos tira da nossa habitual zona de conforto.

      Beijinhos, Sthefani!

      • Sthefani Cordeiro

        Exatamente Rainha, nós podemos fazer conjecturas de como seria nossas ações mas só vivendo para saber.

  • Gabriel

    “(…) ávidos por acompanhar a repercussão dessa estreia junto ao público internacional”.

    Quem nunca quis saber como um produto brasileiro é visto lá fora? E os sites e canais do youtube que encontrei falam bem da série. Também abordam o tanto de gente fresca existe lá fora que não gosta de acompanhar uma série que não esteja no idioma deles por não gostarem de ler legendas. Espero que isto não prejudique as chances da série ganhar uma segunda temporada.

    “Quem nunca assistiu uma série só para criticar que atire a primeira pedra”.

    Lá vai…

    • Vera Tocantins

      Gabriel, nesse caso, 3% toca em temas tão universais que a gente entende que não existem barreiras idiomáticas que a detenha.

      Tem Brazuca na área? Tem, sim Senhor!

      Beijão!

  • Arya Ibelin

    Baita texto , este episodio foi um soco no estomago ” a vida, o status quo, a meritocracia e a desigualdade” como vc mesmo fala. 3% vem em uma crescente é isso para mim já é uma vitória, pois muitas series gringas fazem o caminho inverso , um bom piloto e o restante uma chatice.
    Sempre estamos pronto para criticar como você mesmo mencionou Vera, talvez é a proximidade de nossa realidade brasileira, a maioria das pessoas quer ver o contrario de sua realidade pensando que esta nos 3% e na verdade faz parte dos 97%, há Muitos Alvares por ai. e este episodio foi um soco no estomago ” a vida, o status quo, a meritocracia e a desigualdade” como vc mesmo fala.

    • Vera Tocantins

      Arya, como comprovamos ao longo dos anos, nem toda série gringa é boa e nem toda série brasileira é ruim. Fico muito feliz pela iniciativa da Netflix e pelo esforço empreendido pelos envolvidos.

      Beijinhos!

  • Guga Ulguim

    alguém sabe explicar a morte de agata? achei tão aleatório, estava esperando algum momento importante pro personagem(provavelmente relacionado a sua morte/eliminação), mas ao invés disso só tacaram o corpo dela no corredor(e sem nenhuma ferida pra deixar subentendido que foi agredida)

    • Vera Tocantins

      Olá, Guga!

      A Agatha inalou muito gás – você deve lembrar disso – e por isso ela se intoxicou. De fato ela não foi agredida não. Ficou implícito de que ela morreu por envenenamento de gás. A cena da morte dela não foi mostrada, apenas vemos uma panorâmica dela caída morta no corredor sem sinais aparentes de agressão física. Foi decisão artística, creio eu. Mas o que ficou claro é que ela está morta!

      Brigadão pelo comentário!

  • juliana

    depois desse episódio fiquei me perguntando se os familiares do marcos de fato passaram no processo ou morreram/se mataram durante ele mas conseguiram perpetuar a “fama” de bem sucedidos (inclusive com os próprios descendentes crendo na mentira). enfim, fiquei com essa dúvida.

    • Vera Tocantins

      Juliana, todo mundo ficou com essa dúvida. Até aqui não há ainda nenhuma comprovação de que o família do Marco é essa coisa toda.

      Fiquei bem curiosa para saber se de fato eles, os Alvares, são mesmo a elite!

      Brigadão pelo comentário!

  • Gostei bastante da review e das referências, e não só porque (apenas talvez) amo Drummond demais.

    Acho engraçado que enquanto assistimos, podemos até pensar “mas que exagerado, isso não acon…”, daí paramos para pensar nas pessoas e nas discussões que vemos por aí, nos atos de extremismo e na definição de justiça que está cada vez mais se corrompendo e acreditamos em tudo aquilo.

    Aquela cena que mostra a empregada do Marco o servindo foi de um incômodo tão grande para mim, que o roteiro poderia ter poupado qualquer fala, porque ainda assim seria terrível. Acho que é uma das melhores da série.

    É legal também como 3% não poupa suas personagens e aquelas que seriam protagonistas.

    • Vera Tocantins

      Até no trânsito passamos por situações extremas todos os dias, Welson.

      Abraços!

  • João Carlos

    Esse episódio foi sensacional. Começou a subida de 3% na motanha russa ate o final da serie, aqui para quem ainda estava relutante com a serie após esse episodios nao pode negar que a serie tem e muita qualidade.

    • Vera Tocantins

      Sim. A série tem bastante potencial, João!

      Brigadão por comentar aqui.

  • Saide Franco

    Vera, parabéns pela review! A partir daqui a série começa a decolar…
    Minha visão é diferente da sua no segundo parágrafo. As falhas podem ser encontradas em séries de outros canais e países, mas na Netflix bate indignação. Sabemos que o stream já possui um patamar de qualidade alto para todas suas produções originais, até mesmo em séries de baixo orçamento. O que incomoda é a falta de capricho, atenção aos detalhes, respeito a inteligência do público. Não estamos criticando a série por esporte, e por prazer, ninguém aqui está assistindo série de ficção pra passar o tempo. Essa era oportunidade de continuarmos produzindo conteúdo foda a ser comercializado internacionalmente, e derrapamos feio. O público estava torcendo pra 3% ser um hit, a culpa da série ter falhas grotescas não é nossa.
    Os próximos eps são melhores e espero que continue assim, do fundo do meu coração desejo a renovação, e que o pessoal saia concertando tudo o que fizeram de errado.

    • Vera Tocantins

      É isso aí, Saide!
      Também espero pela renovação de 3% e acredito que as arestas serão aparadas para a série ficar mais redondinha e no capricho.

      Amei o seu comentário!
      Abraços!

  • Maria Fernanda Parecis Silva

    Melhor episódio até agora!
    Foi interessante ver que existe hierarquia mesmo entre os excluídos. A família Alvares representou isso muito bem. Eles seriam a elite dentro dos 97%.
    Vou confessar que até esse episódio eu nem me importava muito com o Marco, nem lembrava o nome dele, mas foi impossível não ver o impacto que a prova causou em cada membro do grupo.
    O que eu achei mais interessante é que cada um dos personagens mostrou um lado interessante da personalidade, os que se juntaram e criaram uma espécie de ditadura, os que se uniram pra se defender e a Joana que em momentos difíceis só conta consigo mesma.

    Obs: Agatha é a personagem mais inútil dessa série. Depois do corredor, eu esperava algum desenvolvimento ali. Vou ficar esperando mesmo…

    • Vera Tocantins

      Olá, Nanda!

      Esse episódio trabalhou muito bem vários binômios:
      ●Hierarquia X Submissão.
      ●Totalitarismo X Liberdade de Escolha.
      ●Ações desproporcionais em Situações Extremas X Decisões Ponderadas.

      Entre vários outros esquemas que foram desenhados ao longo do episódio, o que mais se destacou foi a transformação abrupta que as pessoas sofreram ao serem expostas a situações extremas.

      PS: Quem é Agatha na fila do pão? Kkk

      Beijão, migaxxx!